A organização dos tempos escolares: uma proposta inspirada em Paulo Freire

Prof. Dr. Luiz Menna-Barreto

          Sou professor aposentado da EACH/USP onde atuo como professor sênior na área de Cronobiologia, ramo do conhecimento no qual é estudada a organização temporal dos organismos. Meu interesse em educação veio com minha formação no ensino fundamental e médio no Colégio de Aplicação da Filosofia da UFRGS, nas décadas de 1950-60, onde a orientação da escola primava por incentivar a participação dos alunos e manutenção de disciplinas de humanidades ao lado das científicas. Estava depositada a semente da interdisciplinaridade que acabou marcando minha trajetória intelectual, iniciada na Faculdade de Medicina da UFRGS. Na sequência, veio a transferência para o curso de biomedicina na FMRP-USP (Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP) onde me dediquei às então nascentes neurociências. Mestrado na mesma FMRP e doutorado no ICB, sempre às voltas com as relações entre o sistema nervoso e o comportamento. Fui professor do ICB até 2004 quando conheci a proposta da criação da EACH na zona leste de SP e para lá me transferi e onde atuo desde então, na graduação e pós-graduação (programas de Neurociências e Comportamento e atualmente Estudos Culturais).

            Um episódio dos primeiros anos da EACH em 2006 foi a criação da Sala Paulo Freire em um prédio onde ficavam as salas de aula e salas de docentes. Essas salas de docentes eram cubículos individuais envidraçados; propusemos uma sala coletiva sem paredes divisórias o que acabou sendo aceito pela direção. Curiosamente, na Paulo Freire nunca tivemos problemas de segurança o que não ocorreu nos cubículos individuais supostamente mais seguros, dado que as divisórias de vidro não só não impediam a invasão como não bloqueavam o som. Já ali predominava o espírito coletivo inspirado no mestre.

            Ao longo de minha experiência como professor de neurociências acabei desenvolvendo uma proposta de programa inspirada em Paulo Freire, objeto de artigo[1] que posso compartilhar com interessados. Contrastando com o ensino tradicional de neurociências que via de regra começa com o neurônio e mais precisamente com a membrana desse neurônio, um exercício de abstração que nem sempre cativa o interesse dos estudantes. Na minha proposta começo as aulas problematizando os sistemas sensoriais humanos, utilizando as experiências concretas dos alunos como terreno para desenvolver conceitos fundamentais.

            Neste artigo vou compartilhar a experiência que acumulamos em nossas pesquisas na temática da Cronobiologia [2], apontando alguns conhecimentos para muitos inéditos e concluindo com uma proposta de encaminhamento para o ambiente escolar. Mais especificamente, discutirei o tema dos horários escolares, ou se preferirem, da organização temporal da vida escolar. Organismos vivos oscilam sempre em praticamente todas suas funções, dentre elas o ciclo vigília/sono humano constitui um exemplo bem conhecido pela população.

          Os ritmos biológicos, como são conhecidas as oscilações nos organismos vivos, são característicos para cada espécie, por exemplo aquelas de hábitos noturnos e outras, como nós humanos, de hábitos diurnos. Essas temporalidades vem sendo construídas ao longo da evolução e acabam transmitidas entre gerações, mas é importante lembrar que herdamos também os mecanismos que permitem adaptações a novas temporalidades ambientais. Exemplos humanos são hoje triviais, como as viagens transoceânicas entre as Américas e o Extremo oriente, com até 12h de diferença no dia/noite, ou ainda um novo trabalho em turnos, diferente daquele no qual vínhamos trabalhando. Os horários escolares inserem-se nessa dimensão e os processos de adaptação a esses horários envolvem não só os estudantes, como também professores e funcionários, sem falar das respectivas famílias.

          O início da vida escolar para uma criança certamente exige ativar processos de adaptação que nem sempre se mostram eficazes no sentido de evitar problemas como sonolência na sala de aula[3], uma espécie de “ponta de iceberg” dessa transição. Aluno sonolento em geral tem problemas ao aprender, preocupando pais e professores. Nessa questão há uma proposta de mudança de horários que vem sendo adotada em alguns países, que consiste em atraso no início das aulas de uma ou duas horas, com resultados que podemos discutir, mas que certamente são bastante limitados por ignorarem os hábitos de sono das famílias, dos professores e dos funcionários. A base desses atrasos reside na constatação de uma mudança de hábitos de sono que ocorre na puberdade, adolescentes tendem a deitar e acordar mais tarde, o que pode produzir um encurtamento do sono – aliás compensado parcialmente nos finais de semana com sonos mais prolongados. Essa medida de atraso está fundamentada num imperativo biológico - as “famosas” 8h de sono diárias - bastante discutível, que podemos debater se houver interesse, mas de qualquer forma não creio ser razoável ignorar os hábitos das famílias, dos funcionários e dos/das docentes.

            Qual encaminhamento proponho aqui, inspirado em Paulo Freire? Em primeiro lugar trazer a questão para reflexão tanto nas salas de aula como em reuniões de pais e professores e funcionários. Nessa etapa, as observações devem ser compiladas e analisadas, para serem negociadas soluções num momento seguinte, soluções compartilhadas pelos agora cúmplices dos cuidados com a saúde. Entre as propostas que emergirem dessas conversas, surgirão mudanças de horários de entrada e saída dos estudantes, bem como dos docentes e funcionários, nada trivial, certamente, mas que tornará os participantes cientes de seu papel de sujeitos dos próprios tempos. Paralelamente, esse processo poderá ser acompanhado por registros de, por exemplo, horários de sono e vigília ao longo de 2 a 3 semanas, incluindo finais de semana, os chamados diários de sono ou melhor ainda diários de atividades[4]. A aproximação com Paulo Freire reside justamente nesse processo de conscientização dos limites e potencialidades dos corpos nesses ajustes de horários de atividades. Um alerta: não devemos nos limitar a eventuais ganhos de produtividade no aprendizado, típicos da educação bancaria tão justamente criticada por Paulo Freire.

 

Para contatos: menna@usp.br

 

[1] Menna-Barreto, L  “Ensino de neurociências – Questão de ordem”, Neurociências • Volume 2 • Nº 6 • novembro-dezembro de 2005

[2] Para saber mais sobre a Cronobiologia recomendo “Cronobiologia: Princípios e Aplicações”, N.Marques e L.Menna-Barreto, Edusp, 3a. edição, 2003.

[3] Ver FLouzada e LMenna-Barreto, “O Sono na Sala de Aula”, Ed. Vieira&Lent, 2007. Este livro está esgotado mas posso compartilhá-lo em versao digital.

[4] Posso fornecer modelos desses diários de atividade/sono

Imagens: Anderson Matos