Abelhas e florestas,
como proteger essa ameaçada relação.

Mayara Faleiros Quevedo, Celso Barbiéri e Tiago Maurício Francoy

          Definir o termo floresta não é uma tarefa fácil pois, no mundo, existem diversas definições, que vão de acordo com os objetivos específicos de quem o define. A exemplo disso, a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), define florestas como áreas que medem mais de 0,5 hectare com árvores maiores de 5 metros de altura e cobertura de copa superior a 10% ou árvores capazes de alcançarem estes parâmetros in situ. As florestas são influenciadas por diversos fatores, como latitude, densidade e altura da vegetação, temperatura, índices pluviométricos, composição do solo e até mesmo atividade humana. Dentre as florestas brasileiras, grande parte é de floresta nativa, dividida em seis biomas (Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga, Pampa e Pantanal) e uma outra parte de floresta plantada (principalmente Eucalipto e Pinus para fins comerciais).

 

          Quando falamos de abelhas, que são insetos pertencentes à ordem Hymenoptera, também nos deparamos com a difícil tarefa de classificá-las, pois formam um grupo extremamente diverso e abundante na sua distribuição, apresentam comportamento tanto social (constroem colônias, com divisão de castas e tarefas), quanto solitário (cada abelhas constrói seus ninhos em cavidades individuais). No Brasil, a abelhas mais reconhecida é a Apis mellifera, também conhecida como abelhas europa, abelha do mel ou abelha africanizada. Sua inconfundível coloração amarela e preta também nos remete à lembrança de seu ferrão e do mel que normalmente consumimos, embora essa não seja uma abelha nativa do Brasil e que é muito explorada comercialmente. Além desta espécie exótica, que é amplamente distribuída no por todo o território nacional, possuímos, somente no Brasil, aproximadamente 3000 espécies, a grande maioria de espécies de nativas solitárias e cerca de 300 espécies de abelhas sociais sem ferrão, que desempenham um papel importante como polinizadores. Embora pouco conhecidas da população em geral, as abelhas sem ferrão, pertencentes à tribo Meliponini, são bastante comuns e de fácil manejo, tornando possível a prática da Meliponicultura (criação racional de abelhas sem ferrão).

 

       

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  E qual a relação entre florestas e abelhas e por que ela está ameaçada?

          A relação entre florestas e abelhas é um tipo de relação ecológica interespecífica harmônica de mutualismo, onde a abelha é beneficiada com recursos das angiospermas (pólen, néctar, óleos florais e resinas) e a planta garante a eficácia na sua reprodução com a polinização, quando as abelhas levam grãos de pólen de uma flor para a outra, de forma não intencional.

 

          As ações antrópicas no meio ambiente se intensificaram após a chamada Revolução Verde, com o desenvolvimento de novas tecnologias, como sementes de alto rendimento, sistemas de irrigação, mecanização, fertilizantes, além de herbicidas, fungicidas e pesticidas químicos, a fim de aumentar a produção de alimentos. Mas, à medida que o ser humano avançava no objetivo de conquistar a natureza, o desequilíbrio ambiental só aumentava. Isto envolve, além do meio ambiente, a reflexão moral da sociedade, sobre o que é possível aceitar de uma atividade econômica quando os seus custos sociais e ambientais alcançam o limite planetário seguro.

 

 

 

“A obrigação de suportar nos dá o direito de saber.” 

Rachel Carson

 

          Os limites planetários surgem a partir da evidência científica de que a Terra é um complexo sistema integrado, ou seja, os limites operam como um conjunto interdependente. As fronteiras planetárias são descritas em termos de quantidades individuais e processos distintos, mas os limites são interligados.

         

          Nesse contexto, embora as abelhas sem ferrão possam estar relacionadas a atividades econômicas bem estabelecidas, como produção de mel, cera e própolis, sua importância maior é o papel chave que desempenham nos processos ecossistêmicos em que estão envolvidas. A polinização, considerada como um dos principais serviços ecossistêmicos, é importante não somente para a reprodução sexuada das angiospermas, mas também para a produção mundial de alimentos e a manutenção e conservação das redes de interações entre plantas e animais. As abelhas desempenham um papel fundamental para o ecossistema, pois polinizam a maioria das plantas com flores e são consideradas as maiores agentes de polinização.

 

          Na perspectiva global de que a humanidade está próxima de extrapolar os limites ambientais planetários, dos quais todos dependem para o seu bem-estar, a humanidade está vivendo em descompasso com o ambiente, consumindo mais do que o planeta consegue suportar. O entendimento dos serviços ecossistêmicos traz a preocupação em demonstrar como o desaparecimento da biodiversidade afeta diretamente as funções do ecossistema que sustentam os serviços para o bem-estar humano.

 

          Até o fim do ano de 2021, estima-se que a população mundial estará em torno de 8 bilhões de pessoas, confirmando seu constante crescimento. Com isso, aumenta também a demanda por alimentos, commodities agrícolas, terras cultiváveis e biocombustíveis. Assim, a capacidade de suporte ambiental diante da demanda de produção e da alocação de recursos político-ambiental para atender a pressão sobre o sistema global envolve um desafio de grandes escalas.

A biodiversidade passou a ser considerada uma variável independente, que exerce um papel importante na regulação dos processos ecológicos que regem o funcionamento dos ecossistemas. Qualquer possível efeito negativo no funcionamento do ecossistema deve-se não somente à perda de espécies propriamente ditas, mas à velocidade com que isso vem acontecendo. Hoje em dia, as espécies estão sendo extintas de 100 a 1.000 vezes mais rápido do que em épocas anteriores à existência do homem na terra, e a extinção adicional das espécies ameaçadas pode acelerar substancialmente essa perda.

Cerca de 90% da biodiversidade brasileira está presente em áreas intensiva ou extensivamente exploradas em atividades econômicas, o que significa que o manejo agrícola adequado é o principal meio de assegurar a viabilidade da diversidade biológica. Contrariamente, o modelo de desenvolvimento adotado pelo Brasil e pela maioria dos países ocidentais, figura como a raiz do problema de perda da biodiversidade e fragmentação de habitats.

 

          As populações de abelhas estão ameaçadas por atividades antrópicas que não se comprometem em manter saudáveis tais populações. Mudanças climáticas, espécies invasoras, monoculturas, menor diversidade de recursos florais e locais de nidificação, aplicações de altas doses de pesticidas têm efeitos negativos sobre as abelhas. Grande parte da contaminação por pesticidas deve-se ao crescente desenvolvimento industrial, bem como ao aumento na produção de alimentos, os quais proporcionaram ao homem uma qualidade de vida jamais alcançada. Porém, seu uso indiscriminado pode afetar o futuro da segurança alimentar global, que poderá depender mais da manutenção dos serviços ecossistêmicos essenciais do que a mera disponibilidade de terras cultiváveis.

          A demanda atual pelos recursos naturais tem gerado conflitos em relação ao seu uso indiscriminado, o que exige novas e urgentes abordagens referente ao estudo de taxonomia, genética, comportamento, tamanho das populações, distribuição espacial e temporal das espécies e interações com o grupo. Esses estudos são de extrema importância para adoção de práticas adequadas à manutenção e conservação da biodiversidade. Para os estudos de alterações ambientais, os insetos respondem de forma rápida às perturbações nos recursos de seus habitats, assim como alteração na paisagem e mudanças na estrutura e função dos ecossistemas, tornando-se excelentes bioindicadores.

 

          Dentre os objetivos do desenvolvimento sustentável proposto pela Organização das Nações Unidas (ONU), destacamos dois deles que estão diretamente ligados à essa questão, que são os: objetivo 13 (Tomar medidas urgentes para combater a mudança climática e seus impactos) e objetivo 15 (Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da terra e deter a perda de biodiversidade).

 

          Com base no que foi discutido acima, podemos concluir que a adoção de práticas sustentáveis e amigáveis aos polinizadores pode, em grande parte, ajudar na manutenção dos ecossistemas terrestres, especialmente das florestas. Essa relação mútua entre plantas e polinizadores faz parte de um intrincado sistema, onde as abelhas, ao voarem de flor em flor em busca de recursos alimentares, transportam os grãos de pólen e realizam a polinização das flores e a produção de frutos. Estes frutos darão origem a novas plantas, que crescerão e oferecerão mais recursos alimentares aos polinizadores, além de alimentos para outros habitantes das florestas e lugares de nidificação para as abelhas e também para outros animais. Um mundo sem florestas é um mundo sem polinizadores, sem alimento suficiente para as populações que nele vivem e certamente destinado ao fracasso. Acreditamos que não é neste mundo que queremos tentar sobreviver. Cuidemos da biodiversidade!!!

 

Referências

BRAAT, LEON C.; DE GROOT, RUDOLF. The ecosystem services agenda: bridging the worlds of natural science and economics, conservation and development, and public and private policy. Ecosystem services, v. 1, n. 1, p. 4-15, 2012.

BROWN, M.J.F., PAXTON, R.J. The conservation of bees: a global perspective. Apidologie 40 (3), 410–416, 2009.

CARDINALE, B.J.; PALMER, M.A. & COLLINS, S.L. Species diversity enhances ecosystem functioning through interspecific facilitation. Nature, 415:426-429, 2002.

CARSON, Rachel. Primavera Silenciosa. 1 ed. São Paulo: Editora Gaia, 1969.

CHAPIN III, F. S., SALA, O. E., BURKE, I. C., GRIME, J. P., HOOPER, D. U., LAUENROTH, W. K., LOMBARD A., MOONEY, H. A., MOSIER, A. R., NAEEM S., PACALA, S. W., ROY J., STEFFEN, W. L. e TILMAN D., Ecosystem consequences of changing biodiversity: experimental evidence and a research agenda for the future. Bioscience 48: 45-52, 1998.

COSTANZA, R.; D’ARGE, R.; DEGROOT, R.; FARBER, S. & GRASSO, M. The value of the world’s service and natural capital. Nature, 387: 253-260, 1997.

DAILY, GRETCHEN C. et al. Nature’s services. Island Press, Washington, DC. [Cap. 1 e 2 pp. 1-19], 1997.

EHRLICH, Paul R.; EHRLICH, Anne H. The population bomb revisited. The Electronic Journal of Sustainable Development, v. 1, n. 3, p. 63-71, 2009.

GARAY, I; DIAS, B. Conservação da biodiversidade em Ecossistemas Tropicais. Petrópolis: Editora Vozes, ISBN: 85.326.2529-0, 2001.

IMPERATRIZ-FONSECA VL, CONTRERA FAL, KLEINERT AMP. A Iniciativa Brasileira dos Polinizadores e a meliponicultura. In: Anais do XV Congresso Brasileiro de Apicultura e I Congresso Brasileiro de Meliponicultura, Natal, 2004.

IMPERATRIZ-FONSECA, V. L.  GONÇALVES, L. S.; FRANCOY, T. M.; SILVA, P. N. O desaparecimento das abelhas Melíferas (Apis mellifera) e as perspectivas do uso de abelhas não-melíferas na polinização. In: SEMANA DOS POLINIZADORES, 3, Petrolina. Palestras e resumos. Petrolina: Embrapa Semiárido. p. 213-226, 2012.

MICHENER, C.D. The Bees of the World, 2nd ed. John Hopkins University Press, Baltimore, 2007.

POTTS, S.G., BIESMEIJER, J.C., KREMEN, C., NEUMANN, P., et al. Global pollinator declines: trends, impacts and drivers. Trends Ecol. Evol. 25 (6), 345–353, 2010.

SCHWEIGER, O., BIESMEIJER, J.C., BOMMARCO, R., HICKLER, T., et al. Multiple stressors on biotic interactions: how climate change and alien species interact to affect pollination. Biol. Rev. 85 (4), 777–795, 2010.

Sobre o autores

Mayara Faleiros Quevedo

Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (2006), especialização em Biotecnologia pela Universidade Federal de Lavras e especialização em Planejamento e Tutoria em Educação à Distância pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Mestrado em Ciência Animal na área de Sanidade Animal pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Tem experiência em Educação a Distância, Prática de Ensino, Estágios Supervisionados e em laboratórios, com ênfase em biologia molecular, imunologia, sustentabilidade e controle de qualidade. Além disso, possui experiências em Processos Administrativos Disciplinar e Sindicâncias para Servidor Público Federal. Atualmente, doutoranda em Sustentabilidade pela Universidade de São Paulo - USP.

Celso Barbiéri

Doutorando e Mestre em Sustentabilidade e Bacharel em Gestão Ambiental pela Escola de Artes Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo. Atua nas áreas de conservação de abelhas nativas do Brasil, ciência cidadã, educação ambiental, meliponicultura e divulgação científica. Participa de diversas atividades relacionadas a conservação de abelhas sem ferrão, educação ambiental, popularização e tecnificação da atividade de meliponicultura, ministrando cursos e oficinas relacionados a esta temática. Também atua como convidado no grupo de trabalho sobre abelhas nativas do Estado de São Paulo, contribuindo para a formulação de políticas públicas para a conservação de abelhas nativas e regulamentação da meliponicultura no estado. Realizou estágio em metodologias de pesquisa em Ciência Cidadã e Análise de Redes Sociais no Centre for Ecology and Hydrology, em Wallingford, Reino Unido, sendo bolsista do programa PRINT USP em 2019. Membro fundador e co-diretor da plataforma Meliponicultura.org. Membro Associado do Club of Rome Youth Program. Foi Diretor Técnico-Científico da ONG SOS Abelhas sem Ferrão entre 2014 e 2019.

 

Tiago Maurício Francoy

Formado em Ciências Biológicas pela FFCLRP - Universidade de São Paulo (2002) e com titulação de Doutor em Genética pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (2007), atua principalmente com os seguintes temas: Africanização das abelhas Apis mellifera nas Américas, inseminação instrumental de rainhas, morfometria tradicional e geométrica, identificação automática de espécies por morfometria de asas e por técnicas de biologia molecular. Realizou seu Pós Doutorando na FFCLRP pelo Depto de Biologia onde desenvolveu uma linha de pesquisa visando a identificação automática de espécies de abelhas por morfometria de asas e a avaliação da variabilidade populacional, intra e inter específicas. Atualmente é Professor Associado e Presidente da Comissão de Graduação na EACH - USP, onde trabalha com biologia da conservação de espécies de abelhas nativas e introduzidas, meliponicultura e uso biotecnológico dos produtos das abelhas.

livro.jpg
asf_andrematos71.jpg
euglossa_flor.jpg
asf_andrematos60.jpg
15.png
13.png

Imagens: Anderson Matos