Desreguladores endócrinos: efeitos à saúde pública e a biodiversidade

Marcelo Antunes Nolasco

          Era a década de 1950. Marcada por eventos históricos como a Guerra Fria, a corrida espacial e os avanços científicos importantes, com destaque para o a mecanização da agricultura associada ao aumento vertiginoso do uso de produtos químicos destinados a elevar a   produtividade agrícola - conhecido por Revolução Verde. Com o lema de banir a fome no mundo, por meio da produção agrícola intensificada, países como os EUA e europeus mudaram a forma de produção de alimentos, inicialmente em seus respectivos territórios, posteriormente expandindo também àqueles em menor estágio de desenvolvimento, como o Brasil. Até então, o uso de pesticidas era percebido apenas como um benefício para a agricultura, saúde pública e economia, sem, no entanto, que se conhecesse seus impactos negativos.  Eis que Rachel Carson, bióloga, ecologista e escritora estadunidense lançou uma publicação que mudou para sempre essa percepção.

Trata-se do livro Primavera Silenciosa (Silent Spring, 1962). O livro, que completa neste ano 60 anos de lançamento, foi um marco histórico em que teve início o debate sobre riscos relativos ao uso de agrotóxicos e de toda uma gama de produtos químicos sintéticos, presentes na sociedade contemporânea.

 

 

Figura: Capa do livro Primavera Silenciosa

 

          Embora os agroquímicos para controle de pragas tenham elevado a produtividade do setor agrícola, com destaque para a elevação da produção de alimentos, houve, por outro lado, uma crescente conscientização dos riscos à saúde humana e ambiental, associados ao seu uso. Principalmente nas duas últimas décadas, uma vasta literatura científica baseada em pesquisas examina como a exposição precoce a uma série de agentes químicos - encontrados não apenas em agrotóxicos, mas também em produtos de higiene pessoal, fármacos e plásticos - pode afetar a saúde humana.  Assim, os efeitos no metabolismo endócrino e, portanto, na desregulação hormonal, têm sido observados na geração dos organismos a eles expostos e nas gerações seguintes, o que traz preocupações ainda maiores quanto aos riscos à saúde humana em escala planetária.

          O avanço e a consolidação do conhecimento científico, desde a biologia molecular aos estudos com experimentos em animais em laboratório e no ambiente aquático, demonstram que os resultados das investigações são irrefutáveis. Estudo nas esferas clínica, bioética e legais trazem igualmente contribuições significativas, elevando as inquietações dos especialistas.

          Estudo recente (2021) publicado no periódico Toxicology Reports informa que diversos compostos químicos, que perturbam o sistema endócrino, também apresentam neurotoxicidade, afetando, negativamente, o sistema nervoso. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) estão presentes na água, solo e alimentos mais de 170 compostos químicos classificados como desreguladores endócrinos (DEs) ou estrogênios esteroides. Estão presentes ainda em vários produtos domésticos como detergentes, desinfetantes, protetores solares, produtos e embalagens plásticas, além dos pesticidas da agricultura e hormônios sintéticos utilizados na produção animal intensiva.  Pesquisas de longa duração mostram que a exposição aos DEs, mesmo em baixíssimas concentrações (i.e., nanogramas por litro de água), já afetam negativamente a saúde humana, desde a função reprodutiva até o desenvolvimento do câncer, e, mais preocupante, com efeitos que podem perdurar por diversas gerações.

 

          E não bastasse os efeitos supramencionados, a exposição aos DEs tem sido também associada ao desenvolvimento de distúrbios neurológicos, como transtorno do espectro do autismo, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade e deficiências cognitivas. Estas substâncias, quando presentes em fluidos biológicos de mulheres grávidas, apresentam evidências epidemiológicas que sugerem associações entre a exposição aos DEs e alterações negativas no desenvolvimento neurológico das crianças. O fato de sua ocorrência se apresentar em múltiplas fontes - águas residuárias urbanas (esgoto sanitário) e industriais, rios, lagos, solos, sedimentos aquáticos e até mesmo na água potável -, eleva os desafios em controlar sua presença, em especial em países em que são lançados milhões de litros por segundo de dejetos humanos nos rios, sem qualquer tratamento.

 

          Deste modo, uma vez que as águas superficiais são as principais fontes de abastecimento de água potável à população, a ingestão de água pode, potencialmente, representar uma rota de exposição a uma ampla parte da população aos DEs, com consequências incalculáveis. O fato é que, alguns países em maior estágio de desenvolvimento têm buscado controlar o lançamento destes compostos nos recursos hídricos, implementando tecnologias avançadas de controle da poluição. Nas demais regiões do mundo, ainda impera a negligência. A ausência, ou o número insuficiente de estações de tratamento de esgotos, resulta no acúmulo destes compostos nas águas superficiais. Estas, mais adiante, serão captadas para se transformarem em água potável servida à população. É comprovado que as tecnologias mais usuais de purificação existentes nas cidades são incapazes de remover estes compostos de forma eficiente.

 

          Embora as boas iniciativas e práticas de alguns países, com adoção de medidas crescentes de restrição na produção e utilização de produtos nocivos à saúde ambiental e humana, sejam uma realidade, o Brasil ainda se encontra distante de implementar políticas e leis que garantam avanços no controle da produção, uso e descarte dos DEs.  Assim, faltam mecanismos de controle de DEs, relativos à qualidade da água potável que chega às torneiras das casas, para que comprovadamente esteja isenta destes compostos, que garantam a boa saúde da população atual e futura.

          É pouco provável que exista algo totalmente seguro no planeta, isento de qualquer nível de risco. Assim é com a água, o ar, o solo, os alimentos e produtos que utilizamos e consumimos no dia-dia. Decisões sobre os níveis de produtos químicos permitidos por lei nas águas, alimentos e produtos de consumo cotidianos, deveriam ser tomadas tendo por base o conhecimento cientifico acerca do nível de risco considerado aceitável à saúde das pessoas. Fazer chegar o conhecimento cientifico à população em geral, por meio de diferentes estratégias de comunicação, é fundamental para a proteção da saúde humana das gerações atuais e futuras.  Porém, ainda que lentamente, avançamos. E avançaremos mais rápido à medida que tomarmos consciência das consequências do nosso modo de produção agrícola, industrial e de consumo, e dos meios de proteção da água e demais recursos naturais... enfim, à medida que conhecermos melhor o modo como vivemos.

 

Sobre o autor

Marcelo Antunes Nolasco

Biólogo com doutorado em engenharia civil e ambiental pela UFSCar e USP respectivamente, com pós-doutorado pela Universidade da Califórnia, Berkeley. Tem interesse na produção e disseminação do conhecimento no campo do controle da poluição das águas. Realiza pesquisa teórica e experimental com caracterização química da poluição hídrica e soluções biotecnológicas no tratamento de águas residuárias (urbanas, industriais e agrícolas) para recuperação de recursos e na produção de bioenergia. É professor da disciplina de Saneamento Ambiental na graduação em Gestão Ambiental e na pós-graduação em Sustentabilidade - EACH/USP. 

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