Rompendo Barreiras: a ciência do nosso planeta

Leonardo Fernandes Rosa Cauduro

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Breaking Boundaries: The Science of Our Planet, 2001

Dir.: Jon Clay, 73 minutos, EUA.

Original Netflix 

          O documentário “Breaking Boundaries: The Science of Our Planet” (Rompendo Barreiras: A ciência do Nosso Planeta) foi lançado este ano na plataforma de streaming Netflix. O documentário narrado pelo naturalista britânico David Attenborough apresenta dados de pesquisas de cientistas, dentre eles o sueco Johan Rockström, um dos diretores científicos do Potsdam Institute for Climate Impact Research.  O principal tópico abordado no vídeo são as chamadas “barreiras planetárias” e seus respectivos pontos de inflexão que. Em outras palavras, ponto que se forem ultrapassados põem em risco o equilíbrio do nosso planeta.

 

          Já nos primeiros segundos, Johan apresenta uma alegoria: No caso de você estar dirigindo a noite, em alta velocidade e em uma região montanhosa, você iria preferir estar com os faróis do carro ligados ou desligados? A resposta é óbvia. E é isso que a ciência tenta fazer todo o tempo: iluminar o caminho para que todos vejam os riscos que existem. E esses riscos se referem aos limites das 9 barreiras planetárias (Imagem 1) propostas por Johan, e que são didaticamente apresentadas no documentário. Na figura abaixo você pode identificar as 9 barreiras, das quais para 7 delas já temos muito conhecimento quanto aos limites.

 

Imagem 1- Imagem retirada do documentário: Rompendo Barreiras: Nosso Planeta. As 9 barreiras planetárias.

          A primeira barreira é a mudança do clima na Terra, cuja prova alarmante é o degelo que está ocorrendo em nosso planeta. Johan explica que o gelo presente, principalmente nos polos do planeta, possui a capacidade de resfriar o planeta através da reflexão da energia solar de volta ao espaço, tendo em vista que uma superfície branca permanente reflete 90% do calor que chega do sol. Portanto, o derretimento dessas calotas além de diminuir o seu tamanho, também deixa suas margens muito escuras, fazendo-as absorver calor ao invés de refletir. Na condição atual então, as calotas passam de resfriamento automático para aquecimento automático. E esse é o ponto crítico* mais grave do sistema do planeta. Um exemplo aterrorizante é o da Groenlândia que perde 10 mil metros cúbicos por segundo e continuará perdendo enquanto a temperatura do planeta continuar a subir.

 

        Outro impacto direto do derretimento das geleiras é a elevação drástica do nível do mar. Johan revela cálculos chocantes que mostram que se apenas o oeste da Antártida derretesse totalmente elevaria em mais 5 metros no nível do mar! Cinco metros você leu! Mas não caia da cadeira que ainda tem mais. Se o leste da Antártida, que comporta 10 vezes mais gelo, derretesse haveria um aumento potencial do nível do mar de mais de 50m! Isso colocaria em extremo risco centenas de cidades litorâneas no mundo todo.

 

          A professora Ricarda Winkelmann do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impactos Climáticos, explica que esses acontecimentos começaram a partir da Revolução Industrial, que aumentou muito a liberação de CO2 (dióxido de carbono) na atmosfera. E esse aumento culminou, em 1988, na ultrapassagem da marca de 350 ppm (partes por milhão) de CO2 na atmosfera da Terra. Naquele momento ultrapassamos a primeira barreira. Pior ainda é que já estamos muito além disso, estamos em 415 ppm, dentro da denominada “faixa de incerteza da ciência”, que se estende até 450 ppm, onde começa a “zona de alto risco” em que os pontos críticos se tornam altamente prováveis, se não inevitáveis. E segundo Ricarda essa é uma estimativa conservadora, dado que já podemos ver diariamente nos meios de comunicação sinais desses pontos críticos como as secas, as ondas de calor, as enchentes, degelos e incêndios florestais.

 

        Segundo os cálculos feiro por Johan, o limite da barreira climática do planeta é o aumento de 1,5ºC na temperatura global. Se ultrapassarmos esse limite corremos um risco enorme. Hoje temos um aumento de 1,1ºC indo rapidamente em direção ao limite. Nossa única chance de ficar dentro da barreira climática do planeta é alcançarmos, nos próximos 30 anos, uma economia mundial livre de combustíveis fosseis.

 

AS 4 BARREIRAS DA BIOSFERA

          As próximas 4 barreiras propostas por Johan referem-se à biosfera. A primeira delas são os Biomas existentes no planeta. Para discorrer sobre o assunto foi convidado o professor brasileiro Carlos Nobre do Instituto de Estudos Avançados da USP, que com sua pesquisa iniciada em 1998 na Floresta Amazônica embasou a tese das barreiras planetárias. Ao estudar como a floresta cria seu próprio clima, Carlos identificou, ao longo dos anos da pesquisa, que grandes partes da nossa floresta tropical estão secando. Na Amazonia ocorriam no máximo 3 meses de estação seca, entretanto com o aquecimento global e a degradação florestal a estação seca está ficando 6 dias mais longa por década, desde a década de 80.

          E conforme a floresta é fragmentada e abatida, sua capacidade de reciclar água e gerar chuva na estação seca diminui e se a seca se prolongar por mais de 4 meses a densa vegetação morre e é substituída pela savana, processo irreversível denominado “Savanização”. Segundo os dados apresentados pelo pesquisador brasileiro, nós já perdemos cerca de 20% da Floresta Amazônica. Podemos estar prestes a assistir a floresta passar de amiga planetária a inimiga planetária, já que conforme a selva se transforma em savana muitas árvores morrem e o carbono existente nelas é liberado na atmosfera. Estima-se que nos próximos 30 anos podem ser liberados 200 bilhões de toneladas de CO2 na atmosfera, o equivalente a todo carbono emitido no mundo durante os últimos 5 anos. E para se ter noção, a perda de 25% da cobertura vegetal do mundo já representaria a ultrapassagem do limite da zona segura em direção à zona de alto risco. Contudo, nós já eliminamos quase duas vezes mais que esse limite, cerca de 40% da cobertura vegetal do mundo, fazendo com que avançássemos muito zona de perigo adentro nessa barreira.

          Mas o desmatamento causa ainda outro problema: a perda a Biodiversidade da natureza, que é a terceira barreira. A Drª Anne Laringauderie da Plataforma Intergovernamental em Biodiversidade e Serviços de Ecossistemas revela que em apenas 50 anos a humanidade eliminou 68% da população selvagem global, escancarando que estamos de fato em meio a uma crise de biodiversidade mundial. E dentre as espécies desta lista estão as espécies de insetos, como as abelhas (eliminadas com o excesso de pesticidas aplicado nas monoculturas), sem as quais é inviável a produção de muitos dos nossos alimentos. Com isso, ironicamente a produção de alimentos para os humanos e seus rebanhos está eliminando um elo fundamental na cadeia de produção de alimentos, conduzindo à incapacidade futura de alimentar todo planeta. Nós precisamos de uma natureza saudável e sem os insetos o planeta não é saudável, nem funcional. Já estamos, claramente, muito além do limite nesta barreira.

 

          A quarta barreira planetária discutida no documentário é um tema muito caro para Johan, a Água (Ciclo Hidrológico). Você sabe quanto litros de água você precisa por dia para sua sobrevivência? Não? Pasme: 3 mil litros de água doce por dia! Isso mesmo: 3 toneladas de água doce por dia, distribuídas em ingestão, higiene, lavar roupas, cozinhar, usar na indústria etc. E apesar do dado chocar, nós ainda estamos na zona de segurança nessa barreira, segundo as avaliações atuais. Mas isso não significa que estamos fazendo o dever de casa dessa matéria, pois caminhamos rapidamente para a zona de perigo. Portanto, necessitamos rever o consumo não essencial que fazemos desse recurso tão importante.

          Por fim, a última das barreiras da biosfera envolve o fluxo de nutrientes, principalmente nitrogênio e fósforo. Esses elementos químicos são componentes essenciais de todos os seres vivos. Mas também são os principais ingredientes dos fertilizantes, que ao serem utilizados em excesso, acabam indo contaminar os corpos d’água. Johan identifica isso, claramente no mar Báltico, onde ele pescava bacalhau com seus irmãos e hoje ninguém mais pesca nesse mar porque ele está literalmente vazio. Isso deve-se, não somente ao uso extensivo de fertilizantes escoados das lavouras, mas também à pesca excessiva.  

 

          A Profa. Elena Bennet (Universidade McGill em Montréal) explica que ao desenvolvermos vias químicas que possibilitaram a extração do elemento fósforo na forma pura da natureza (sem estar ligado a outros elementos), pudemos utilizá-lo de forma mais eficiente, principalmente no que concerne ao assunto produtividade. Com esse feito conseguimos, segundo Elena, quadriplicar a produção de dados tipos de alimento em todo o mundo.

          Contudo, adquirimos o hábito de aplicar muito mais fertilizante do que as lavouras necessitavam de fato, e com isso grande parte dos macronutrientes que não eram utilizados passaram a ser escoados para os rios. Causando uma desestabilização dos ciclos naturais, principalmente o do fósforo, devido a hiper concentração desse macronutriente nesses ambientes aquáticos, o que possibilitou o surgimento de um processo chamado eutrofização. Nesse processo o excesso de fósforo biodisponível intensifica o desenvolvimento e proliferação de um número cada vez maior de algas, fazendo com que em pouco tempo a quantidade de luz que penetra neste ambiente reduza drasticamente e prejudique seriamente a elas mesmas e a toda biodiversidade deste local. Tendo em vista que isso gerará um ciclo de efeitos em cascata de morte em massa desses organismos seguidos por um consumo intensificado do oxigênio dessa água durante sua decomposição.

 

          Esse processo, que tem sido relatado em diversas localidades do mundo e nos alerta sobre o avanço na zona de perigo desta barreira, pode ocorrer tanto em lagos como em partes do oceano deixando o ambiente em que ocorrem inabitáveis e, por isso, recebem o nome de “zonas mortas/inabitáveis”.

 

          A 6ª barreira é a acidificação dos oceanos. Segundo o professor Terry Hughes (ARC Centre of Excellence for Coral Reef Studies) a diminuição no pH dos oceanos ocorre devido ao fato de que 1/3 de todo o CO2 lançado na atmosfera vai parar nos oceanos, dissolvendo-se na água. Quando o CO2 se dissolve na água cria o ácido carbônico e isso deixa o pH dos oceanos mais ácido. Esse ácido reage com íons carbonato diminuindo a disponibilidade de carbonato para o crescimento dos esqueletos de, por exemplo, moluscos, ostras e mexilhões. Apesar de ainda estarmos na zona segura para acidificação dos oceanos, estamos avançando em direção à zona de perigo, pois nas últimas décadas o oceano se tornou 26% mais ácido, e em enquanto as concentrações de CO2 permanecerem altas o oceano continuará se acidificando.

 

          Dos 9 sistemas propostos pelos estudos de Johan, 2 deles ainda permanecem sem suas barreiras numéricas definidas, as ditas “novas entidades” e os “aerossóis”. As “novas entidades” se referem aos mais de 100.000 novos materiais produzidos pelo homem desde componentes orgânicos, microplásticos e metais pesados aos resíduos de lixo nuclear. Sendo todos estes potenciais poluentes que podem interagir com o meio ambiente de maneiras catastróficas.  

 

          Os aerossóis por sua vez estão causando tanto impacto global que já possuem uma barreira planetária própria. Para o Prof. Veerbhadran Ramanathan da Universidade da Califórnia em San Diego, as partículas de poluição do ar, também conhecidas como aerossóis, estão causando estes impactos devido à propriedade física de suas moléculas de dispersar a luz solar. Segundo o professor convidado isso causa um efeito de resfriamento planetário que mascara o efeito estufa, encobrindo cerca de 40% do efeito do aquecimento global. Isso implica também em ofuscar a poluição no ar, que mata mais de 7 milhões de pessoas todos os anos, e tira, em média, 3 anos da expectativa de vida de cada um de nós.  Entretanto, como dito anteriormente ainda não há uma determinação cientifica numérica de qual é o limite para a poluição do ar, apesar do Prof. Veerbhadran estar convencido de que já rompemos também essa barreira.

 

          Finalmente, a nona e última barreira é a camada de ozônio, que ficou mundialmente conhecida na década de 80 devido ao buraco na camada de ozônio descoberto na Antártida. Na época houve um grande alarde e comoção mundial em torno desse problema, já que a camada de ozônio é responsável por interceptar a radiação ultravioleta prejudicial que atinge diretamente o nosso DNA e causa doenças mortais como o câncer de pele. Então nesse ímpeto de mudança os avisos da comunidade científica foram transformados em ações políticas, se tornando o nosso primeiro e único exemplo de que quando os governos do mundo se unem conseguem gerenciar uma crise planetária.

 

          Então hoje, momento em que já ultrapassamos 4 das 9 barreiras planetárias: clima, perda florestal, nutrientes e biodiversidade (Imagem 2), estamos novamente diante da necessidade de uma decisão política conjunta. Caso contrário, corremos o risco de levar o planeta ao colapso. Mas ainda temos a chance de, fundamentados em estudos científicos, unir esforços por uma causa em comum: a sobrevivência da nossa espécie no planeta terra.  E começar essa luta é pra já. Comece observando o uso que você faz da água, o modo como descarta o lixo. Aliás, observe o quanto de lixo você produz! Que tipo de lixo é produzido na sua casa? Vá ao espelho esse pergunte: como o meu modo de vida tem contribuído para romper essas barreiras estabelecidas a milhões de anos? Claro, que a responsabilidade não é apenas sua. Mas é também. E você pode até dizer: uma andorinha só não faz verão! Talvez. Mas elas também não esperam por ninguém quando chega a hora de voar. Você que está lendo este texto, provavelmente, nasceu sem asas, mas com a capacidade de conquistar o céu. Por que não usar esse super poder para cuidar da terra?

Imagem 2- Imagem retirada do documentário: Rompendo Barreiras: Nosso Planeta. As 4 barreiras ultrapassadas.

Nota:

*Um ponto crítico é o ponto além do qual uma mudança se torna irreversível.

Sobre o autor

Graduando no último semestre do Curso de Ciências Biológicas (Bacharelado) da Universidade Presbiteriana Mackenzie, tendo iniciado em 2016. Com experiência na área de Microbiologia, Bioquímica, Fisiologia Humana e Qualidade de Vida. Com interesse na área de: Biologia molecular. Integrante do Núcleo de Estudos em Biociências (NEB) e atualmente Técnico Bolsista (FAPESP) no projeto "Estudo dos efeitos da progesterona e da dieta hipercalórica sobre as interações entre célula beta pancreática e tecido adiposo", sob orientação da Profª Drª Anna Karenina Azevedo Martins (EACH-USP).

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