Ciência e crítica do conhecimento

Thomás A. S. Haddad

          De acordo com uma anedota muito popular em alguns círculos, o notável cientista britânico William Thomson, Lord Kelvin, teria afirmado na última década do século XIX que o futuro da física – a ciência que ele praticava, e que atingira um prestígio incomparável na Inglaterra vitoriana – encontrava-se na “sexta casa decimal”. Não há registro de que Kelvin tenha mesmo dito ou escrito algo assim (aparentemente foi o físico americano Albert Michelson quem falou coisa vagamente semelhante em um discurso que proferiu em 1894), mas o que os contadores dessa história realmente pretenderam, nas infinitas vezes em que a repetiram ao longo do século XX (e até hoje), foi sempre ilustrar aquele que teria sido um espírito de confiança arrogante e ao mesmo tempo ingênua no arremate definitivo da ciência (representada, por metonímia, pela física): a impressão de que só restava refinar mais e mais o que já estava explicado, somente agregando precisão ao que já era, em essência, conhecido.

          Mas a anedota não tem interesse sem sua segunda parte, que contém a lição moral: qualquer um que repita o caso triunfalmente informa a audiência que, menos de dez anos depois de Kelvin (pretensamente) pronunciar aquelas palavras cheias de confiança excessiva, surgiriam a mecânica quântica e a teoria da relatividade, causando transformações tão profundas que deixariam a física irreconhecível para quem tivesse sido tolo a ponto de acreditar que ela realmente tinha atingido sua culminação. Como em toda historieta edificante que tem o objetivo de moralizar os ouvintes – neste caso, mostrando que a arrogância será castigada, e a humildade é o caminho para a salvação –, resta espaço para uma chave-de-ouro intoleravelmente trivial: “sempre há mais por descobrir, e a aventura da ciência não tem fim!”.

 

          Ora, dizer que “sempre há mais por descobrir” é, além de uma platitude mortificante, contraditório com o próprio objetivo de denunciar o “erro” daqueles que teriam decretado o término da era das descobertas científicas: afinal, eles jamais negaram que haveria algo novo a conhecer – ainda que esse algo fosse tão somente o valor da milionésima casa decimal de uma grandeza qualquer, e apenas trouxesse mais precisão a seu conhecimento. Para além disso, não escapará a quem refletir um pouco sobre a anedota que, longe de encarnar algum tipo de humildade epistemológica virtuosa (pois aparentemente é virtuoso bradar quão pouco sabemos sobre as coisas, como teria dito Sócrates, aquele moralista chefe da história da filosofia ocidental), por detrás dela há, na verdade, uma arrogância inabalável: a suposição de que realmente sempre haverá coisas novas que poderemos conhecer. Em outras palavras, “sabemos muito pouco!” é tão absurdamente irrelevante quanto “já sabemos tudo!”.

 

          A questão verdadeira não é se há novos ou mais objetos esperando, passivamente, por sofrer a tirania do nosso conhecimento, mas sim saber se a ciência ainda tem algo realmente novo a dizer sobre o funcionamento do mundo – coisas trivialmente novas, claro, sempre podem ser ditas sobre tudo, como as redes sociais demonstram cotidianamente. E coisas úteis ou interessantes certamente a ciência tem muitas a dizer: novas vacinas, novas fontes de energia, novas partículas elementares... Tudo muito relevante, é óbvio, mas não necessariamente diferente do contínuo, importante e monótono trabalho de expansão do domínio empírico do conhecimento e aumento da precisão.

 

          Infelizmente, a pergunta sobre a possibilidade de ainda dizermos algo radicalmente novo – uma pergunta que pode ser resumida em “qual futuro há para a ciência?” – costuma ser desqualificada por todos os que deveriam se interessar seriamente por ela: os próprios cientistas, os intelectuais de maneira geral, e o público (todo mundo, enfim). Ironicamente, desde o século XVI (talvez) ou XVII (certamente), as ciências têm informado a maior parte das nossas reflexões sobre o futuro, cada utopia e cada distopia. Mas sempre evitamos indagar sobre as possibilidades de futuro da própria ciência, preferindo considerá-la tão natural e inevitável quanto parece ser a natureza a que ela se reporta.

 

          Entender a causa do mal-estar gerado pela pergunta sobre o futuro da ciência, sem descartá-la como mais uma simples ideologia de “fim da história” (o que ela não é), talvez seja um passo para pensar honestamente a respeito. O filósofo americano Don Ihde fez há alguns anos uma observação muito perspicaz, que pode ajudar a refletir sobre o assunto: por que a ciência não tem críticos, pelo menos da mesma forma como há críticos das artes e da literatura? A estes últimos, que em geral não são artistas ou escritores, é reconhecida uma função e, sobretudo, um profundo compromisso com o futuro do objeto da crítica. A quem se aventura a esboçar a crítica da ciência, ou a falar de seus limites, ou, anátema, especular sobre seu possível esgotamento, reservam-se apenas as imputações de irracionalismo, obscurantismo ou ignorância sobre o objeto.

          O mais importante é, contudo, que a reflexão sobre qual futuro pode haver para a ciência é tanto mais urgente quanto é, debaixo da superfície, verdadeiramente uma reflexão sobre a totalidade do projeto epistemológico da era moderna. Como escreveu Hans Blumenberg, chegou o tempo de substituirmos a grande questão kantiana sobre “o que podemos saber?” por outras perguntas – melancólicas, mas condizentes com o intolerável sentimento de decepção que atravessou o século XX e só se agravou nestas duas primeiras décadas do nosso: “O que realmente queríamos saber? O que nos era permitido esperar?”. Saber se a ciência respondeu ao que queríamos saber, se ela nos prometeu mais do que podíamos esperar, é, precisamente, começar a pensar em qual pode ser o seu futuro.

Sobre o autor

Depois de ter sido físico teórico, Thomás Haddad descobriu que seu verdadeiro interesse é a história das ciências. É professor dessa área na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP desde 2005. De janeiro a dezembro de 2020, foi o Charles H. Watts Memorial Visiting Professor in the History and Culture of Book e R. David Parsons Fellow da John Carter Brown Library/Brown University, EUA. Entre 2014 e 2020, foi editor-chefe da Revista Brasileira de História da Ciência. É presidente da Science & Empire Commission da Division for the History of Science and Technology (DHST) e secretário-geral adjunto da DHST. Atualmente, investiga a história dos saberes celestes nas Américas na época colonial e em contextos interculturais.

IMG-20220209-WA0000.jpg