Impactos da utilização de água na mineração

Sônia Maria Adão

INTRODUÇÃO

            Inicio este diálogo em reconhecimento à água na sua mais divina potencialidade geológica: primeiro pela exuberância na natureza e depois pelo seu caráter de entidade ofertado a nós pela geologia da mãe terra,  e mais, somos parte dela, ou melhor, estamos a ela integrados em todos os âmbitos da nossa existência: nossas dimensões biológica cultural, economia e política são indissociáveis da água.

            Dei-me o direito de azeitar o olhar para esta potencialidade sentada a beira do lago de um pesqueiro assumindo o privilégio de observar os peixinhos que se movem na água ora como se passeassem, ora como se brincassem por essa densidade, o que para uns é apenas a fórmula H2O,  para outros, um lago prazeroso, um entretenimento, umas horas de descanso, para o dono um bom investimento, para os que lá trabalham uma fonte de renda e outros envolvimentos mais.

            O olhar já azeitado por essa observação proporciona um questionamento fundamental, no meu ponto de vista:  Quais os conhecimentos giram em torno deste lago|? Consigo elencar alguns, o leitor que aponte outros ampliando os limites deste olhar. Primeiro é de onde vem a água e como ela é retida? Por se tratar de um terreno rural, qual o grau de pureza da água, há uso de agrotóxico por perto, se há, em qual distância? Além do mais, vejo neste espaço duas matemáticas: uma geométrica que constrói a arte do lago e outra financeira que gira em torno de toda a economia do pesqueiro.

            Nem todo peixe pode ser criado num lago de pesqueiro, por quê? Como os peixes chegam ali, na forma alevino? Se sim, qual tipo de peixe e qual tempo de crescimento para a pesca?

            De todo modo, a água é o elemento reinante, pois é capaz de entrecruzar uma série de conhecimentos ancorados, por exemplo, nos questionamentos feitos anteriormente. Tudo isso parece nos dizer que entre o prazer de pescar e a degustação do pescado há muito conhecimento envolvido ora implícita, ora explicitamente, e mais, qualquer realidade é sempre muito complexa; exatamente por isto nenhum conhecimento basta por si mesmo.

 

 

                                                                                                          

 

                                                                                                                         Figura 1 -Parque Nacional Serra do Cipó - Minas Gerais -                                                                                                                                                                                                                    Cachoeira do Gavião - Foto: Mariana Schmitz -28/05/2022

           

            A exuberância do cenário acima, provoca, fundamentalmente, a primeira indagação concernente ao foco desse diálogo: como a água é utilizada pelas empresas que extraem o minério e para quê?  Preliminarmente, podemos afirmar que em contraponto ao lago que acolhe os peixes, que proporciona entretenimento, as mineradoras convulsionam nossa entidade em barragens, poluem os rios extinguindo os peixes, secam as nascentes, rebaixam os lençóis freáticos, adoecem, tensionam, matam. Haja vista os recentes desabamentos das barragens de rejeito na Mina do Feijão, no município de Brumadinho e da barragem da mina do Fundão no município de Mariana, ambos em Minas Gerais. Falaremos mais detalhadamente sobre estes desastres em outro momento do diálogo.          

             Os aspectos impactantes sobre a utilização da água na atividade extrativa minerária, é objeto de muito estudo e pesquisa por geólogos, engenheiros de Minas, ambientalistas, ativistas sociais, etc. Na verdade, os impactos não se restringem ao meio ambiente, mas às comunidades mineradas e neste sentido os impactos passam a ser socioambientais. Assunto que todo brasileiro deve conhecer e compreender. Devia estar em toda sala de aula, pelo menos nas escolas das comunidades mineradas.

            Neste sentido, devo admitir que este não é um assunto novo, muito menos simples, pode ser novo o jeito de falarmos e o suporte científico em que ele se apresenta. Então, vamos umedecer aqui nossos pensamentos na elaboração, nos questionamentos, na interpretação a partir, sobretudo, da ciência da água.

 

A CIÊNCIA DA ÁGUA

            Sabe-se, em geral, que a água é fonte de vida. Então, dialoguemos um pouco sobre a ciência circundante à água, certamente o diálogo nos proporcionará entender as contradições socioambientais, fruto de ignorâncias e de abusos economicistas; além do mais, a maioria dos seus usuários a tem apenas como um elemento de superfície terrestre, totalmente alhures à sua essência tanto em relação à biodiversidade como em relação à geodiversidade.

            Muitas pesquisas existentes sobre a água na natureza e sobre a natureza da água confirmam como toda a biodiversidade do planeta depende da água e, toda forma de vida está inexoravelmente integrada ao planeta. As moléculas da água são fundamentais a todos os processos vivos. Usamos a água em tudo. É impossível manter-se ativo sem água, tanto plantas como animais. Os vegetais são compostos em média de 90% de água e sem vegetais não teremos alimentos, a menos que sejam produzidos em laboratórios. E ainda assim, serão necessários muitos litros mais de água para a produção de tais alimentos.

            Em nosso organismo, a água é usada para reações químicas que ocorrem em nosso corpo com a função de transporte, ou seja, tudo se move pelo sangue que tem a água como base. Na água é possível dissolver vários componentes químicos diferentes, alguns não são solúveis como os lipídios, por exemplo, mas a maioria que nós precisamos introduzir no corpo ou retirar do corpo, podem ser feitos com a água. Neste sentido a água é considerada um solvente universal.

            O movimento e a função da água nas células dos seres vivos constituem aspectos altamente relevantes, ou seja, ela é intrínseca à estruturação da arquitetura celular. A água desempenha papel essencial na fisiologia da célula, através da dissolução das moléculas; ela mantém o protoplasma no interior da célula. Sem água a célula não desenvolve nem realiza as reações químicas necessárias à manutenção da vida.

            A natureza é perfeitamente harmoniosa, os ciclos da água são perfeitos. O problema é quando o ser humano interfere destrutivamente no sistema natural. Um dos efeitos desta interferência é que o excesso de uso da água de alguns cria carência de água para outros e um desses excessos é o do uso de água pelas mineradoras causando o rebaixamento do lençol freático local. Outro problema é o da contaminação das águas, inclusive do mar. A água não está preparada para absorver o lixo sobretudo de resíduos sólidos como metais pesados.

            Outra consequência grave da interferência humana no ciclo da água está relacionada ao desmatamento. Todo o globo terrestre sofre com o desmatamento da Amazônia, por exemplo. Já pensou o que significa isto em relação à interferência no ciclo natural da água? Assunto para um artigo específico.  

            Saber sobre as formas de como a água se apresenta no planeta, bem como de sua distribuição, parece essencial. Ela está presente nas formas sólidas, líquidas e gasosas e cobre a maior parte da terra, porém, a maior parte da água que temos é salgada e congelada. A água que nós, seres vivos usamos, apesar de constituir uma parte bem pequena: água doce, água corrente e água subterrânea, é suficiente para nosso abastecimento.

            Enfim, temos muito mais para dizer sobre a essência da água, ou seja, esta temática não se esgota aqui, mas nos contentemos, por enquanto e passemos às relações da água com a atividade da extração mineral, eixo do nosso diálogo.

 

DESALIENAÇÃO MINERAL

            Considerando a perspectiva de um dos coordenadores do Canal Mineral, Lourival Andrade, sobre a necessidade de desalienação mineral em relação aos usos do recurso natural, suas consequências e seus benefícios, vamos discorrer brevemente sobre a nossa relação com a realidade mineral.

            Nesta perspectiva, algumas perguntas são fundamentais:  Sabe o sal que adicionamos à nossa comida, os comprimidos de antiácido, o lápis que usamos e seus belos coloridos, a lâmpada que eficientemente ilumina nossa cidade, nossas casas, fábricas, etc., os carros, as estradas asfaltadas e as ruas calçadas em que nos deslocamos, os celulares que gostosamente e alienadamente usamos e que muitas vezes são descartados num lixo comum? Sabe O granito, o azulejo e a pedra ardósia que embelezam o acabamento de nossas casas? Sabe as pilhas usadas até em escovas de dentes especiais, as latinhas de cerveja que ignorantemente são descartadas até no mar? Sabe as panelas, sejam elas de vidro ou ferro ou alumínio e os fertilizantes utilizados para produzir os nossos alimentos como o nitrogênio, o fósforo e o potássio? Pois é, esses produtos e muitos outros, podemos dizer, sem dúvidas, são todos oriundos de minerais. Os minerais estão presentes em quase todos os elementos do nosso cotidiano e em coisas que na maioria das vezes nem imaginamos. Já imaginou o número de minas arrebanhadas para todos estes produtos? Sabe quantos tipos de minerais estão presentes nas lâmpadas?

            Questionamento fundamental: o que você tem a ver com isto? Na nossa visão, tudo. Toda a sociedade precisa ser educada neste quesito, uma vez que os recursos minerais são finitos e a exploração seja de pedras preciosas, minérios, e outras, trazem benefícios, mas também grandes danos socioambientais os quais parecem distante da realidade do processo da produção e de seu descarte depois, mas não estão. Neste caso, o meio ambiente sofre duas vezes: primeiro com a exploração dos recursos minerais, depois com a poluição proveniente do descarte irresponsável do lixo produzido.

            A maior fonte de minerais metálicos no mundo, situa-se na América Latina. A atividade mineradora consiste na extração de riquezas minerais dos solos das formações rochosas que compõem a estrutura terrestre. É considerada uma das mais importantes atividades econômicas no mundo inteiro. No entanto essa atividade, em geral, gera sérios danos ao meio ambiente sobretudo à água; degrada e polui o solo, causa instabilidade do maciço rochoso, polui toda a comunidade do entorno, causa grande alteração da paisagem e desvaloriza os terrenos minerados. Mas, exatamente, para que se utiliza a água na mineração?

 

A UTILIZAÇÃO DA ÁGUA E SEUS IMPACTOS NA ATIVIDADE EXTRATIVA MINERAL

            Várias são as funções do uso da água na mineração. A lavagem do minério usa em média 90%, os outros 10% estão distribuídos em outras atividades como baixar a poeira, na lavagem de equipamentos, etc. A barragem, por exemplo, na mineração, é utilizada para armazenar todos os materiais que não são aproveitados após o beneficiamento – os rejeitos. E no armazenamento dos rejeitos é comum que se utilize uma elevada quantidade de água.

E POR QUE AS BARRAGENS SE ROMPEM?             

            Dois são os motivos preponderantes: o primeiro diz respeito aos “fenômenos da natureza” como terremotos, tsunamis ou outra possível catástrofe que poderá ocorrer na área da estrutura ou nas regiões de proximidade a ela. Não se aplica no Brasil, pelo menos até hoje. O segundo motivo diz respeito à falha humana tanto no momento de sua implantação como no momento de operação, sobretudo, quanto à responsabilidade e ao compromisso durante o monitoramento. As barragens não se rompem instantaneamente, mas ao longo do tempo, apresentando pequenas rachaduras, falhas, danificações ou problemas na estrutura da obra.

            O rompimento da barragem da Mina do Feijão em Brumadinho, Estado de Minas Gerais, de propriedade da empresa VALE, ocorrido em 25/01/2019, devastou 133,27 hectares de  Mata Atlântica, matou centenas de animais, plantas, plantações, além de ter contaminado o rio Paraopeba, um dos afluentes do Rio São Francisco, reduzindo a quantidade de oxigênio da água, ou seja, além de causar a morte do rio, a água se tornou imprópria para o consumo humano. Também, o assoreamento dos cursos d’água, a alteração da vazão dos rios e a degradação da paisagem, considerado um dos maiores crimes ambientais da história brasileira. E as mortes? 241 corpos encontrados e 21 permanecem desaparecidos na profundidade da lama.

 

 

Figura 2 - LUIZA FRANCO/BBC NEWS BRASIL.: Hélio Murta, 72, plantava mandioca, banana e cará, além de produzir mel, que vendia no centro de Brumadinho.

               

 

 

A foto acima registra o efeito desastroso, não somente, ambiental, mas também social. As comunidades atingidas perderam suas fontes de renda, casas e uma serie de bens materiais, que possivelmente não terão de volta, o que tem provocado adoecimentos de todo tipo, um deles é a depressão. 

                 Já o desastre da mina de Fundão, no município de Mariana, de propriedade das empresas Samarco, Vale e da anglo-australiana BHP Billiton, ocorrido em 05/11/2015, teve 43,7 milhões de metros cúbicos de rejeitos despejados e um total de 19 mortes. A lama percorreu um total de 663 quilômetros atingindo toda a Bacia Hidrográfica do Rio Doce até chegar no mar, no estado do Espírito Santo, atingindo 230 municípios que têm seu leito como ferramenta de subsistência. Um mês depois dessa tragédia foram retiradas 11 toneladas de peixes mortos tanto em Minas Gerais como no estado do Espírito Santo. Vidas foram levadas, distritos foram destruídos e milhares de moradores ficaram sem água, sem casa e sem trabalho. Além de tudo, ambientalistas afirmam que os efeitos do rejeito no mar serão sentidos por, no mínimo, 100 anos.

 

 

 

Figura 3 - Conectas Direitos Humanos. Distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG), atingido pelo rompimento da barragem de rejeito da mineradora Samarco. Esse distrito, pelo seu marco histórico ­– foi um importante centro de mineração no século XVIII, caminho da Estrada Real. Antes do rompimento da barragem tinha o turismo com preponderância na economia local.

            Em síntese, os danos causados à agua se dão nas seguintes formas: poluição dos recursos hídricos (superficiais e subterrâneos) pelos produtos químicos utilizados na extração do minério; descarte indevido do material produzido  não aproveitado (rochas minerais e equipamentos danificados) levando à sedimentação e causando poluição nos mesmos; mortandade de peixes em áreas de rios poluídos pelos elementos químicos oriundos de minas; contaminação de áreas superficiais (doce e salgada) pelo vazamento direto dos minerais extraídos ou seus componentes; aumento da turbidez e consequente variação na qualidade da água e na penetração da luz solar no interior do corpo hídrico; alteração do pH da água tornando-a geralmente mais ácida; redução do oxigênio dissolvido dos ecossistemas aquáticos.

            E nem falamos no garimpo que utiliza do mercúrio para extração do ouro. Mas como nossa perspectiva é a de desalienação mineral, ainda que brevemente dialoguemos sobre isto, uma vez que, dificilmente nos perguntamos sobre a história de um produto do qual usufruímos. Pena. Se soubéssemos, talvez, não contribuíssemos com tanto desastre socioambiental e para com adoecimentos e mortes. muitas vezes nosso consumo está galgado numa cultura de vaidade, de status, em relações de poder e, com certeza,

 de consumismo.

            A utilização do mercúrio usado no garimpo na extração do ouro, além de contaminar o solo, pode provocar graves complicações à saúde dos garimpeiros ou de pessoas que indiretamente são infectadas. Ele se acumula na cadeia alimentar ao se fixar na natureza em volta da região em que o material foi processado, mas com a chuva pode cair em curso d’água, ou seja, de algum modo o mercúrio é lançado no solo, na água e no ar.

            Também, a erosão causada pelo garimpo pode transportar o mercúrio para corpos d’água locais contaminando, deste modo, o lençol freático. A distribuição deste metal no organismo pode causar muitas doenças como: doenças autoimunes, anomalias cromossômicas, leucemia, câncer de fígado e de pulmão, infertilidade masculina, morte fetal, dificuldade de concentração, depressão, hipertensão e muitas outras doenças que podem levar à morte.

            Já pensaram nos impactos causados pela extração da areia em beira de rios, subaquáticas ou costeiras? Assunto para outro momento. Todo este dano forma uma teia em relação às legislações, interesses políticos espúrios, ganância econômica, ausência do Estado em função de um projeto nacional, humanista. O domínio é do capital.

            De todo modo, se de um lado nossa entidade água é fonte de vida, de outro, o descaso com sua forma de utilização se torna causa de adoecimentos e de mortes, destrói a nossa biodiversidade e transtorna a geodiversidade como vimos, ao longo desse diálogo. Afinal, na agricultura, também, de acordo com a ONU, a qualidade da água potável merece muita atenção. No Brasil, por exemplo, o uso de agrotóxicos utilizados na agricultura é considerado um grande vilão no processo de contaminação da água potável.

            E você, onde está nesta realidade? Reitero: o que você tem a ver com tudo isto?

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALVES, Murilo da Silva. Karine Gonçalves Carneiro, Tatiana Ribeiro de Souza, Charles Trocate, Marcio Zonta (org.). Mineração: realidade e resistências. 1ª ed. São Paulo – Expressão Popular, 2020.

ESPÍNDOLA, Haruf Salmen. Eunice Sueli Nadari e Mauro Augusto dos Santos. Rio Doce: riscos e incertezas a partir do desastre de Mariana (MG).  Revista Brasileira de História 39(81). May-Aug 2019.

PAULA, Victor Gomes de. & Ronald Corrêa e Tuntunji Valdi Lopes. Garimpo e mercúrio: impactos ambientais e saúde humana. Universitas: Ciências da Saúde, v. 4, n ½, p 101-110, 2006.

SCLIAR, Claudio. Minerais e Rochas: Base material da aventura humana. Belo Horizonte: Legalo, 2013. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=KlV3ASpM19M&list=PLdDOTUuInCuzz39awZBPVYCmvK85DghH5&ab_channel=Programa%C3%81guaBrasil

 

https://www.youtube.com/watch?v=Cst5qxzCBfc&ab_channel=OrigensNT

www.canalmineral.com.br

https://www.geoscan.com.br/blog/barragem-de-rejeito/

https://www.bbc.com/portuguese/geral-51228582

 

Sobre a autora

 

 

Sônia Maria Adão

Doutora em Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo e, atualmente, colaboradora do Canal Mineral  - www.canalmineral.com.br

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