O renascimento do parto

Maria Vitória B. B. Lopes

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O renascimento do parto, 2013

Dir.: Eduardo Chauvet, Brasil

MasterBrasil

            A vivência da gestação e do parto são momentos únicos e importantes na vida de todas as gestantes, o que pode causar os mais diversos tipos de sentimentos e sensações. Por isso, é interessante compreender um pouco das problemáticas que cercam esse rito de passagem, além dos fatores que também podem contribuir para que seja uma conjuntura mais gostosa e marcante.

            No documentário ‘’Renascimento do Parto’’, disponível em plataforma de streaming, somos atravessados por diversas questões sobre esse evento. Inicialmente, é traçada uma linha histórica que divide e compara os partos ocorridos antes e depois da época industrial. Antes, havia um evento extremamente familiar, em um ambiente familiar, feito por parteiras tradicionais, vindo de ‘’mulheres para mulheres’’. Algo estritamente firmado no fisiológico, emocional e natural. Logo após a revlução industrial, temos a chegada dos médicos no cenário do parto, do intervencionismo farmacológico, da posição ginecológica, do avanço da tecnologia, do local estranho e com pessoas estranhas. E é a partir daí que muita coisa muda, que a informação se faz cada vez mais necessária e que a humanização acaba fazendo falta.

            Dentro desse cenário onde predomina o modelo biomédico de assistência, o protagonismo da gestante é colocado em segundo plano, quase até sobrar apenas a ação e intervenção dos profissionais de saúde. A contração induzida por ocitocina sintética, o colo amolecido por misoprostol, a passagem do bebê ‘’facilitada’’ por episiotomia e muitas outras intervenções que desrespeitam a fisiologia e o processo natural do parir. Tudo isso tira da mulher a chance de dar a luz à seus bebês graças a liberação fisiológica de um coquetel de ''hormônios do amor'', assim nomeados no documentário. E quais são esses hormônios? Ocitocina, endorfina e prolactina, liberados estritamente em momentos de relaxamento e entrega, em ambientes de privacidade e silêncio, onde as mulheres possam se sentir livres física e emocionalmente para agir e se movimentar.

            A partir desse achado, torna-se necessário implementar práticas integrativas e complementares (PICs) no trabalho de parto. Essas são utilizadas como mecanismo de relaxamento, alívio de estresse e ansiedade, manejo de dor e muitos outros benefícios que podem ajudar a retomar esse protagonismo e autonomia da gestante. Dentro das PICs temos a hidroterapia, um método não farmacológico de muita aceitação pelas parturientes, onde utilizamos água quente em diversas formas como banhos, imersão em piscinas e banheiras ou em compressas úmidas.

            Na hidroterapia no trabalho de parto, a água quente tem esse poder de atuar como um local de livre movimentação, de possibilidade de relaxamento, de maior satisfação com a experiência do parto, maior alívio de ansiedade. E esse sentimento de aconchego que a hidroterapia é capaz de trazer contribui para liberação do tão esperado coquetel de ‘’hormônios do amor’’, que vão colaborar para o início e a manutenção  do trabalho de parto ativo, além de reduzir esse tempo de trabalho de parto e também reduzir a aplicação de outros tipos de intervenções.

            Além de tudo isso, a água quente tem um efeito de manejo de dor que auxilia muito positivamente o trabalho de parto. As dores das contrações, do esvaecimento do colo do útero podem ser muito incômodas e inibidoras da liberação desses hormônios pela própria mulher, o que torna necessário o manejo correto dessa dor. Para isso, é muito comum utilizarmos a água corrente em fundo uterino, ela tem efeitos neuroendócrinos, circulatórios, musculoesqueléticos e psicológicos que ajudam no alívio desse incômodo.

            É importante dizer também que a hidroterapia deve ser utilizada com responsabilidade, seguindo as recomendações e contraindicações e sendo fundamental o conhecimento quanto a sua aplicabilidade. Assim como qualquer outra prática, se mal utilizada pode oferecer riscos ao binômio mãe-bebê, e não é isso que procuramos. Em contraponto, ficou mais que claro que se utilizada da forma correta estimulará positivamente esse evento tão marcante, propiciando uma boa experiência às gestantes.

            Ao final, foi possível notar que a mulher tem a total capacidade de parir se não atrapalharmos sua vivência e que o ambiente pode auxiliá-la na produção de hormônios. Além disso, a hidroterapia tem um papel muito importante pois pode trazer um momento de movimentação e encontro com a própria corporalidade que resultam em muitos benefícios de relaxamento e alívio para o manejo da dor. Em um momento tão importante quanto o nascimento, benefícios como esse se tornam cada vez mais necessários e é interessante trazermos o conhecimento dessas práticas para mulheres que estão tendo essa vivência da gestação.

Sobre a autora

Maria Vitória B. B. Lopes

Aluna do 3º ano de Obstetrícia na EACH - USP e bolsista de Cultura e Extensão PUB 2021-22. Partejar e me especializar em saúde feminina têm sido os meus projetos mais gostosos.