O Mundo Assombrado Pelos Demônios

Matheus Pedro dos Santos

resenha.jpg

SAGAN, Carl. O Mundo Assombrado pelos Demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. Trad. Rosaura Eichemberg. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

          - Eu tenho um dragão na minha garagem.

          HAHAHA maluquice, sem dúvida você deve pensar. Não existem dragões de verdade. Você jamais aceitaria essa afirmação como verdadeira sem nenhuma prova e deve me cobrar tais provas caso eu insista nessa alegação absurda. Talvez você peça para ver esse tal dragão que habita a minha garagem e eu te leve até a minha casa, mas você não vê nada além de um cavalete, latas de tinta vazias e um velho triciclo. Conclusão: não há dragão nenhum e eu sou um grande charlatão.

          - Mas calma lá! Você não vê o dragão porque ele é invisível - eu digo.

 

          Minha história fica cada vez mais difícil de acreditar, mas ainda assim você propõe espalhar farinha no chão para ver as pegadas do dragão. Infelizmente, o meu dragão flutua no ar e o seu teste não vai servir de nada. Podemos então usar um sensor infravermelho para detectar o fogo invisível, mas o fogo do dragão é desprovido de calor. Ou então, vamos jogar tinta para torná-lo visível, o que poderia ser uma boa ideia, mas o meu dragão é incorpóreo. E esse padrão de respostas se repete toda vez que você dá uma ideia de um novo teste.

          Foi com essa excelente analogia, no célebre livro “O Mundo Assombrado pelos Demônios” de 1995, que o famoso físico, astrônomo e astrobiólogo Carl Sagan, ensinou o que é ciência ao jovem e tímido estudante do segundo semestre de biomedicina que hoje vos escreve este texto. Não tenho o menor receio em afirmar categoricamente que este livro foi a leitura mais influente e importante para mim, para efeito de formação intelectual e pessoal. Vez ou outra, me pego pensando nessa mesma analogia para entender ou explicar para alguém o que estou tentando fazer no laboratório.

 

          Assim como você, que propôs diversos testes para provar a existência ou a inexistência do dragão na minha garagem, um cientista busca fazer a mesma coisa para responder alguma pergunta que ele tenha sobre a nossa realidade. Mas veja, e aqui entra um ensinamento de Sagan que me persegue sempre, o trabalho desse cientista vai até onde nós humanos podemos fazer testes e experimentos para evidenciar um fato. Uma vez que, no caso do dragão da garagem, não existam testes que possam comprovar a sua existência, como podemos assumir que ele realmente exista? O único fator que indica sua existência é a palavra de alguém que se esquiva de testes palpáveis. E somente a palavra de uma pessoa ou de um grupo de pessoas, não é nem de longe suficiente para comprovar cientificamente qualquer coisa. Em outras palavras, uma ideia precisa ser falseável para ser investigada por métodos científicos, ou seja, uma hipótese precisa ser passível de testes que possam comprovar que ela não é verdadeira e, portanto, refutá-la ou falseá-la. 

 

          É por isso que a ciência nunca conseguiu, e provavelmente nunca conseguirá, provar se Deus ou qualquer outra divindade, existe de fato ou não. E isso não diminui em nada a importância das divindades na vida das pessoas. Para todo teste humano, haverá uma explicação metafísica para o resultado deste teste. Essas explicações estão no campo da fé, que independe de qualquer prova física para que as pessoas possam se apoiar em determinada ideia.

 

          Mas deixemos a fé e vamos nos ater a questões falseáveis. Cada cientista, de todas as áreas, tem um dragão com quem lutar, na sua garagem. Sagan estudava sobre a possibilidade de existir vida em outros planetas e, portanto, seu maior dragão foi a chamada ufologia. O termo ufologia vem da sigla em inglês UFO (Unkown Flying Object), ou em português, OVNI (Objeto Voador Não Identificado). No livro, o autor destrincha essa questão por extensos capítulos, deixando clara a separação entre o que é ufologia e o que é trabalho científico em astrobiologia. Considerando a imensidão do universo, é plausível refletir e pesquisar sobre a possibilidade de que a vida também tenha se desenvolvido em algum outro cantinho desse universo. Outra situação totalmente diferente é afirmar (não falamos nem em teorizar, mas sim em afirmar) que essas formas de vida nos visitam, regularmente, em nosso planeta Terra.

 

          São descritos inúmeros casos de avistamentos de OVNIs e raptos por alienígenas no mundo inteiro. O trabalho da ciência é olhar com uma visão cética e indagativa sobre esses relatos, pois a princípio, são acontecimentos possíveis. Porém, “se o suposto sinal [alienígena] não está à mão para que todo cético ranzinza possa examiná-lo, não podemos chamá-lo de evidência de vida extraterrestre – por mais fascinante que nos parece a ideia.” Não existem verdades sagradas na ciência e “a regra dura, mas justa, é que se não funcionam, as ideias devem ser descartadas.”

 

          Há um princípio filosófico e científico conhecido como Navalha de Occam, onde se diz que diante de várias explicações possíveis, a mais simples tende a ser correta. Pensando nisso, imagine que são encontrados desenhos estranhos em plantações de fazendas e assume-se que com certeza esses desenhos foram feitos por alienígenas. É um raciocínio falacioso assumir uma hipótese como verdadeira simplesmente porque, no momento, ninguém conseguiu explicar satisfatoriamente um fenômeno. É análogo dizer que se um objeto meu sumiu e ninguém assume a culpa, que foram gnomos que pegaram. Não é mais plausível pensar que você se esqueceu onde colocou, ou que você perdeu esse objeto, ou que alguém está mentindo, ou que qualquer outra coisa possa ter acontecido, antes de pensar na possibilidade de que tenha sido realmente um gnomo? A mesma lógica se aplica aos desenhos nas plantações, um monte de outras coisas podem ter acontecido. Uma dessas coisas é, por exemplo, que tais desenhos foram forjados por pessoas buscando fama por sensacionalismo, o que de fato se provou verdade com a confissões de várias pessoas.

 

          Mas como explicar o fato de várias pessoas relatarem avistar OVNIs ou serem raptadas? É outra falácia assumir uma hipótese como verdadeira porque várias pessoas dizem a mesma coisa. É possível que algumas estejam mentindo, e também é possível que elas realmente acreditam terem sido raptados, mas por estarem experimentando alucinações (que são mais comuns do que se acredita) ou uma paralisia do sono. Sagan diz que “Lembranças lúcidas, mas totalmente falsas, podem ser induzidas com facilidade com algumas perguntas ou dicas [...] A memória pode ser contaminada.” Assim, entende-se que, para a ciência, enquanto não haja razões plausíveis para se acreditar em determinada explicação, essa explicação não deve ser assumida. 

 

          É perfeitamente possível que, nos próximos anos, algum fato específico faça os cientistas reavaliarem ou até validarem uma explicação que foi rejeitada anteriormente. Mas o ponto mais importante nisso é que algum fato direcionou os cientistas para essas conclusões, não simplesmente porque não se sabe explicar um fenômeno e assume-se qualquer uma que parece adequada. É daí que vem a ideia de que os cientistas na verdade não sabem de nada, pois estão sempre mudando o que falam. Quando a realidade é que este é justamente um dos mecanismos mais importantes para evitar erros na ciência, não ter verdades imutáveis.

Para mim, Sagan sintetiza brilhantemente os motivos de movimentos como a ufologia ainda acontecerem na frase: “O ceticismo não vende bem”. Questionar e investigar ceticamente é dispendioso e pouco atrativo. O que a ciência tem a dizer sobre certos assuntos é por vezes tão complexo que beira o entediante e o sem graça. Mas o que as pseudociências têm a dizer é sempre bem mais interessante e fácil de entender.

         

          Pseudociências envolvem divulgações que parecem utilizar a metodologia científica, mas que se baseiam em evidências insuficientes ou selecionadas para seu propósito, ignorando os fatos que indicam para outros caminhos. “A pseudociência fala às necessidades poderosas que a ciência frequentemente deixa de satisfazer.” É difícil dizer para as pessoas não darem bola a possíveis viajantes do espaço que vêm em naves em formato de discos voadores para fazer experimentos secretos em pessoas comuns. É uma história excitante demais para não ser compartilhada, por mais que as evidências que apontem para isso sejam vagas ou nulas. 

Os movimentos da ciência e da pseudociência pela busca de conhecimento são totalmente opostos. Enquanto a ciência faz observações, cria hipóteses para explicar tal observação e testa incessantemente e de várias formas diferentes para verificar se tais hipóteses são verdadeiras ou não; a pseudociência se agarra a uma hipótese simplista, porém fascinante, escolhe pontos que a justifiquem e joga fora qualquer outra coisa que a invalide. Se você não conhece os métodos e só tem acesso aos resultados, a resposta mais divertida vai parecer mais convincente. 

 

          Assim, manter a mente aberta para questionar é fundamental para não se iludir com essas respostas divertidas. No entanto, como disse o engenheiro astrônomo James Oberg, a mente não pode estar tão aberta a ponto do cérebro pular para fora. Vale a pena questionar, por exemplo, se a Terra é redonda? Sob um ponto de vista científico, é válido sim e por isso extensos trabalhos foram realizados nesse sentido, e após inúmeras evidências coletadas, é seguro chegar a clara conclusão de que sim, a Terra é redonda. Porém, o que se observa progressivamente hoje em dia, é a negação de conclusões bem consolidadas como a curvatura da Terra. Não porque um fato novo e contraditório tenha sido observado a ponto de justificar uma reavaliação, mas sim por puro questionamento ou porque a resposta que a ciência deu não lhe satisfez. A única resposta que irá lhe satisfazer é a Terra ser plana, por mais que nada de concreto indique que isso seja verdade. Esse é o ponto em que sua mente aberta deixou seu cérebro escapar. 

 

          Este exemplo da Terra plana não é esmiuçado diretamente no livro, porém citei aqui para alertar o quanto a escrita de Sagan de 1995 conversa com os dias atuais. Não é difícil encontrar por aí um monte de exemplos assim, como os movimentos antivacina, o design inteligente em oposição à teoria da evolução darwiniana, negação das mudanças climáticas, negação do potencial fator cancerígeno do cigarro, negação da pandemia de COVID-19 e a crença infundada de seu tratamento precoce com cloroquina e ivermectina. Ah, tem tantos outros... Não é à toa que chamamos esses movimentos hoje de negacionismos. 

 

          E foi na forma deste livro, falando sobre os dragões que habitaram a sua garagem e de seus colegas cientistas da época, que Sagan me mostrou que o mundo estava (e vejo que ainda está) realmente assombrado por demônios. 

Sobre o autor

 

BIOmédico não frustrado, orgulhoso da minha formação e comprometido com as verdades escondidas aos olhos da ciência. Sonho em ajudar as pessoas através de inovação científica na turbulenta realidade da pesquisa brasileira. Mas o objetivo deve ser mais claro que as adversidades, e meu objetivo atual é entender o que raios o tecido adiposo atrapalha na vida da pobre célula beta pancreática de uma mulher gestante e obesa. Tudo isso usando máscara, passando álcool gel e combatendo o analfabetismo científico. Link do Lattes: http://lattes.cnpq.br/4415086458343384

IMG-20220208-WA0002.jpg