NOSSA MÚSICA: um réquiem para a humanidade

Ana Cecília Aragão Gomes

Nossa Música | “Notre Musique” (2004)

Direção| Jean-Luc Godard

Elenco | Sarah Adler (Judith Lerner), Nade Dieu (Olga Brodsky), Rony Kramer (Ramos Garcia), Jean-Luc Godard (Himself)

Produção | França, Suíça. Falado em francês, árabe, inglês, hebraico, servo-croata, espanhol. 80 min.

          O cinema tem a capacidade de abarca tanto o campo do mundo real, como o campo do mundo imaginário. O campo da câmera compreende o campo antropológico que vai do seu objeto (duplo) ao seu subjetivo (consciência de si, alma), do mundo subjetivo (antropocosmomorfismo) ao mundo objetivo (percepção prática). O cinema é chamado a tratar de questões como o altruísmo, a violência, a incomunicação e a invisibilidade no mundo contemporâneo, pois o cinema desviar-se da prática para se relacionar com todos os sonhos e todos os pensamentos. O filme passa a ser o campo estético que agrega diversas formas artísticas, permitindo também diversas interpretações possíveis.

 

         Nesta perspectiva, escolho para o diálogo o filme “Nossa Música”, do diretor, roteirista, crítico, produtor e ator, Jean Luc Godard. Cineasta falecido recentemente e que obteve profundo desenvolvimento na arte e no cinema desde os seus primeiros anos como crítico e pensador das páginas da Cahiers Du Cinema, passando pelo movimento Nouvelle Vague, chegando aos dias atuais com uma maneira ensaísta, política e poética de olhar a realidade.

 

          O filme é uma composição em três momentos: inferno, purgatório e paraíso. Três atos de nossa música.

 

          INFERNO. O filme inicia. O Inferno começa. Imagens vêm uma após as outras, slides de uma história de violência, de morte, de dor, de sofrimento, de miséria que o homem ainda não conseguiu livra-se e jogar fora da gaveta do armário. Seqüência de imagens desfocadas, imagens documentais, imagens frenéticas, interrompidas por sons repetitivos e trágicos e pela fala humana que discorre sobre as duas formas que podemos ver a morte: “uma, como o impossível do possível; outra, como o possível do impossível”. A montagem das imagens não nos dá tempo para refletir e me sinto no inferno dos sentidos. Dê uma forma passiva, acostumo a mente e os olhos a crueldade e a sordidez da violência humana, com a qual termino cúmplice.

 

          Mais do que imagens desconexas, o Inferno aponta para forma dominante em que a visibilidade total é desejada, termina por nada mostrar e sim reafirmar uma verdade já estabelecida. É na contra mão dessas verdades dadas e dessa total visibilidade que o filme parece se impor ao buscar a dúvida, o questionamento, a incerteza.

 

          PURGATÓRIO. Assim como Virgilio acompanhava Dante na Divina Comédia, seguimos Godard e chegamos ao Purgatório: Cidade de Sarajevo, Ex-Iuguslávia. Cidade palco de grandes guerras mundiais e da última grande guerra européia do século XX, onde uma reconciliação parece ser possível. Cidade que vamos conhecendo através de travellings, diálogos, partidas e chegadas. É aí que o nosso Dante constrói a sua Babel onde cada voz procura seu espaço de expressão. Essa busca por espaço provoca um conflito entre o Eu e o Outro, em que a existência do primeiro termina por condicionar a existência do segundo. Eu só sou Eu porque o Outro existe e me reconhece como Eu. O Outro só é o Outro porque Eu existo e o reconheço como outro.

 

          Dentro do carro, passando pelas ruas de Sarajevo, uma mulher pergunta:

          - Porque as revoluções não são feitas pelos homens mais humanos?

          Godard responde:

          - Porque os homens mais humanos não fazem revoluções, constroem bibliotecas.

          - E cemitérios. Completa outro personagem.

 

          A partir daí começamos a estabelecer a relação entre memória, imagem e violência. Descrer na inocência da imagem, sabê-la enquanto meio para afirmação e para imposição de modos de pensar e de ver.

Abismo de comunicação e invisibilidade. Godard faz um ensaio sobre o texto e a imagem, nos conduzindo por uma relação paradoxal que existe entre texto e imagem, entre real e imaginário, entre luz e sombra, entre campo e contra-campo, entre o Eu e o Outro. Ao mesmo tempo, em que essas relações são discutidas no campo do cinema, permitem serem discutidas em relação a condição humana em que as certezas são tomadas por incertezas, pela dúvida, pelo questionamento das informações múltiplas, contraditórias que surgem do cotidiano caótico no qual vivemos, em que a única saída parece ser um estado permanente de reconstrução, de transformação.

 

          Para Godard, “a imagem é felicidade, mas junto dela fica o vazio e toda a força da imagem só pode se expressar através dela. Dizem que nossa linguagem divide arbitrariamente os objetos dentro da realidade e dizem isso como se fôssemos os culpados”. Godard nos traz a ideia de campo e contra-campo (trata-se do mesmo, mas de pontos de vista distintos):

          - Em 1948, os israelitas caminharam sobre as águas em direção à Terra Prometida. Os palestinos caminharam sobre a água em direção ao afogamento. Quadro e Contra-Quadro. O povo judeu se tornou cerne da ficção e o povo palestino o documentário.

          É nesse movimento de campo e contra-campo que estamos no purgatório, que termina com o clamor do diretor por imaginação e poesia.

 

          PARAÍSO. De repente emudecemos. Entramos no Paraíso. A imagem é o que nos resta no Paraíso vigiado por fuzileiros americanos. Não nos preocupamos mais com a culpa. O filme acaba, voltamos ao inferno, purgatório e paraíso cotidiano.

 

            Nossa Música está em busca do invisível e do ininteligível, ou seja, que conhece a limitação da imagem em representar nada além do que o óbvio, tantas vezes repetido, a serviço de estratégia de poder que privilegia o discurso dominante contra as minorias que teimam em resistir com suas diferenças.

            Estamos em uma crise de percepção da realidade em que queremos ver, mas não pensar.  Entramos numa relação de indiferença social. Não suportamos o outro, não queremos ser mais afetados pelo outro. Mas precisamos do outro, pois sem ele não podemos viver e assim fazemos pactos provisórios, promessas enquanto sujeitos e temos paixões calculadas do ponto de vista dos interesses.

            Esse não ver o outro gera uma invisibilidade e uma incomunicação inerente ao processo de excessos de movimento, de imagens, de informações que vivemos. Com tanta informação, com tanta velocidade, com tantas imagens não temos tempo para refletir, para compreender, causando-nos certa cegueira.

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