Era uma vez uma infância...

Anna Karenina Azevedo-Martins e Fabiana S. Evangelista

          Em Wall-e, o robozinho protagonista trabalha diariamente reciclando lixo pra lá e pra cá até receber a visita que um novo modelo muito mais tecnológico e digital, que em nada se assemelha a ele, robô ultrapassado e cheio de afetos tão humanos. Numa das cenas mais emocionantes, Wall-e encontra uma plantinha que finalmente brota naquele planeta de entulhos. Era tudo o que o visitante precisava saber, tal qual a pomba que Noé solta para ter notícias do final do dilúvio. Não de uma arca, mas o capitão de uma nave espacial carregadinha de humanos (só humanos), que puderam escapar do planeta destruído por eles mesmos, entende que agora podem voltar.

          Começamos o filme pensando no lixo com que temos soterrado nossa única casa, o planeta terra, e terminamos com uma surpresa: todos os passageiros da nave estão obesos. O planeta transformado em um grande lixão revela o que sobre nós? Essa história bem que poderia ser menos verdadeira, mas não é. A obesidade é uma realidade em nosso planeta. Sim, a obesidade é também uma pandemia. E a obesidade infantil atinge crianças em todos os continentes (Figura 1).

 

Figura 1. Mapa mundi da obesidade e sobrepeso infantis.

As fontes utilizadas para a produção dessa figura estão listadas em sua parte inferior direita.

"Eu queria ter uma varinha mágica, pra pedir e emagrecer e não precisar ficar fazendo regime, entendeu? Eu era bem magrinha, só que eu comi muito... Eu não deveria ter engordado, mas eu comi demais (Criança 3).”

          Essa fala é a expressão do desejo de uma criança obesa poder resolver o problema rapidamente, como num passe de mágica1. Porém, a magia é exatamente o que a obesidade rouba da infância.

“É horrível, porque os outros ficam zoando, eles falam assim, que eu sou baleia, que se eu começar a andar a terra treme... Eu não gosto, queria ser magra, não gosto de ser gorda (Criança 5).”

          No Brasil, três em cada dez crianças estão acima do peso! Basta olhar ao seu redor para constatar esse achado da Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), divulgada em abril de 2018 pelo Ministério da Saúde. Segundo essa pesquisa, a prevalência (proporção de casos numa dada população) da obesidade no Brasil aumentou em 60% nos últimos 10 anos, passando de 11,8% em 2006 para 18,9% em 2016.

          Segundo os dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional, do Ministério da Saúde, em 2013, cerca de 8% de todas as crianças de 0 a 5 anos foram consideradas OBESAS no Brasil. Levando em conta os números absolutos, eram 345.270 crianças, o que significa um aumento de 79,3% desde 2008. Entendeu? Ou é melhor ler novamente destacando o “aumento de 79,3% desde 2008”? Além de afetar profundamente a vida da criança, a obesidade na infância e adolescência tem repercussões também na vida adulta!

          Mas se esse panorama anterior à pandemia da COVID-19 já era assustador, imagine agora depois de quase de um ano e meio convivendo com a necessidade de isolamento social! Embora seja uma das poucas estratégias eficazes para diminuir a curva de contágio do coronavírus, o isolamento social tem sido um remédio bem amargo, inclusive para as crianças. Mas por que as crianças estão engordando tanto e tão rápido? Quais são as causas da obesidade infantil? Há muitas variáveis que compõem a resposta a essas perguntas. Uma delas, por exemplo, é a genética. Mas como casos de obesidade, geneticamente determinados, correspondem a um número muito pequeno na população, vamos olhar especificamente para o que se relaciona ao consumo alimentar e ao gasto calórico.

          Para nos mantermos vivos precisamos comer porque é dos alimentos que retiramos tudo o necessitamos para manter nosso corpo funcionando com saúde. Numa criança isso é ainda mais importante porque ela está em desenvolvimento. Então, para uma criança a alimentação é o que permite que ela cresça e se desenvolva adequadamente em todos os sentidos. Mas não caia no engano de achar que: “quanto mais melhor”. Não! Pois quando uma criança engorda, porque come mais do que gasta, ela está adquirindo especificamente um determinado tipo de tecido e não se desenvolvendo no todo. Quando uma criança engorda ela ganha gordura corporal ou, tecnicamente, tecido adiposo. E na obesidade o tecido adiposo também está doente. Por isso a obesidade tem sido considerada como um estado de inflamação sistêmica, ou seja, no corpo todo. Por isso a pessoa obesa precisa ser cuidada.

 

Para além da obesidade

          A obesidade em qualquer idade é um problema e deve ser enfrentado. Mas na infância ainda mais, pois as condições de saúde/doença forjadas nessa fase da vida podem ser facilmente levadas para a vida adulta. Cientistas mostraram que pessoas obesas, na infância, têm cinco vezes mais chances de serem obesas quando adultas do que pessoas que não foram crianças obesas. Pior, cerca de 80% dos adolescentes obesos permanecerão obesos na idade adulta2. Se esses dados ainda não são suficientes para nos fazer acordar para a necessidade urgente de implementação de estratégias para o cuidado da obesidade infantil, vamos olhar, então, para os prejuízos causados pela obesidade na saúde dos indivíduos.

          As doenças associadas à obesidade, também chamadas comorbidades, podem ser debilitantes, a ponto de tornar iminentes a morte e a morbidade, principalmente relacionadas às doenças metabólicas e cardiovasculares. Nesse sentido, definir a contribuição independente da obesidade infantil para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares e diabetes tipo 2 tem sido um grande desafio, principalmente porque a obesidade está ligada a outros fatores de risco, como hipertensão arterial, dislipidemia e resistência à insulina. Não é à toa que crianças obesas apresentam maiores chances de desenvolver hipertensão arterial, aumento do colesterol e diabetes tipo 2. Por acaso você conhece crianças que já apresentem esses problemas de saúde?

          Cientistas já identificaram que entre pessoas de 6 a 19 anos, o aparecimento dessas doenças dobra, progressivamente, cada vez que aumenta o IMC (índice de massa corporal – uma relação entre altura e peso do indivíduo) de normal para sobrepeso e daí para obesidade Classe I, II e III, respectivamente 3. Portanto, saber que as chances são grandes de uma criança obesa se tornar um adulto com saúde comprometida, aumenta ainda mais a responsabilidade dos pais, cuidadores, educadores, profissionais da saúde e órgãos governamentais para combater a escalada da obesidade infantil. E como fazer isso?

 

Com leveza na balança

          Se estivéssemos fazendo a lição de casa, talvez os dados de obesidade infantil não fossem tão alarmantes. Estratégias simples que envolvem uma alimentação saudável, a prática de atividade física e a redução do tempo de exposição às telas seriam mais que suficientes para o enfrentamento do problema. No entanto, o desafio é bem maior do que imaginamos! Por isso envolver toda a família, a escola e os amigos é o único jeito de lidar com a obesidade na infância. Aliás, a participação dos pais nas ações para promover a saúde da criança é apontada como peça-chave do processo, principalmente porque o estilo de vida dos pais se reproduz na criança. Basta pensarmos, por exemplo, que grande parte dos hábitos alimentares é determinada pelos familiares, pois são exatamente os responsáveis pela aquisição e preparação dos alimentos consumidos pela criança.

          Quando se fala em alimentação adequada para as crianças, é importante considerar a quantidade de alimentos e a qualidade nutricional e sanitária. Algumas recomendações são simples e podem ajudar no estabelecimento de hábitos alimentares mais saudáveis, tais como: reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados, que em geral são bem mais calóricos, preferindo alimentos naturais; beber água e suco ao invés de refrigerantes; cuidar da higiene dos alimentos e está atento ao efeito das propagandas de alimentos industrializados sobre as crianças.

          Tão importante quanto a alimentação saudável é a prática de atividade física e, por isso, ela deve fazer parte da rotina diária desde os primeiros anos de vida. Brincadeiras que envolvam movimentos e redução no tempo de permanência nas telas de celular, computador, TV e videogame são fundamentais para aumentar o gasto de energia e prevenir a obesidade infantil. De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria 4, o recomendado para crianças de 2 a 5 anos é 180 minutos de atividade física e brincadeiras ao longo do dia e tempo de tela de no máximo 2 horas. Já para a faixa de 5 a 19 anos, é recomendado fazer pelo menos 60 minutos diários de atividades físicas de intensidade moderada a vigorosa e, que o tempo de tela seja no máximo 2 horas, excluindo o tempo para tarefas escolares. Como anda o tempo de tela aí na sua casa? Você acha que é possível reduzir um pouquinho que seja?

          Embora as estratégias para a prevenção da obesidade infantil sejam conhecidas, há uma enorme lacuna entre a teoria e a prática. Em parte, isso talvez se deva à falta de conhecimento ou de oportunidade de participar em ações de educação em saúde. Por isso, em 2019, criamos o projeto ECO kids (Educação para o Combate da Obesidade Infantil), na EACH-USP. Através dele desejamos disseminar conhecimento sobre como enfrentar a obesidade infantil e a importância disso. Naquele momento, produzimos o Diário ECO kids (Figura 2), com o qual crianças de 7 a 10 anos podem brincar enquanto aprendem sobre seus corpos e sua saúde. Desde então, temos mantido um site onde você pode conversar conosco e tirar dúvidas, encontrar, gratuitamente, material para você ou para a criança com quem convive. Inclusive o Diário ECO kids pode ser baixado! Ficaremos muito contentes em receber seu contato.

 

 

 

 

 

Figura 2. Diário ECO kids. O Diário foi elaborado para ser utilizado pela criança, com o convite à participação dos adultos apenas em momentos específicos. O objeto diário conversa o tempo todo com seu leitor estabelecendo uma relação de respeito e cumplicidade com a criança. Caso deseje baixar gratuitamente basta acessa o site:  https://ecokidsusp.wixsite.com/my-site

 

 

          Esperamos ter colaborado para você compreender que a obesidade infantil é um problema de saúde seríssimo, mas que tem tratamento. Não hesite em pedir ajuda para cuidar da sua pequena, ou do seu pequeno. Ajudar uma criança obesa a controlar seu peso é um ato de amor. Quem sabe se cuidarmos de nós, de nossa casa e dos nossos queridos com mais afeto, do mesmo jeito que o robozinho Wall-e cuidou daquele planeta devastado, não veremos brotar uma folhinha de esperança? Para então podermos contar... Era uma vez outra infância...

 

 

Aqui estão outras leituras sobre o assunto

1. Victorino SVZ, Soares LG, Marcon SS, Higarashi IH. Living with childhood obesity: the experience of children enrolled in a multidisciplinary monitoring program Rev Rene. 2014 Nov-Dec; 15(6):980-9

2. Simmonds, M., Llewellyn, A., Owen, C. G. et al. (2016) Predicting adult obesity from childhood obesity: A systematic review and meta-analysis. Obesity reviews. pp. 95-107.

3. Li L, Perez A, Wu LT, Ranjit N, Brown HS, Kelder SH. Cardiometabolic Risk Factors among Severely Obese Children and Adolescents in the United States, 1999–2012. Child Obes. 2016; 12(1):12–19.

4. Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de Orientação: promoção da atividade física na infância e adolescência. 2017.

Sobre as autoras

Anna Karenina Azevedo-Martins 

Sou professora de parteiras e pesquisadora da célula beta pancreática e acredito que fazer ciência com lucidez e filosofia é uma forma criativa e responsável de melhorar o mundo. Sim, é preciso e possível melhorar o mundo. Planos para o futuro? Tornar meu grupo de pesquisa uma referência no estudo da célula beta, aprender a tocar violão e encher o mundo de histórias. Ah, e o inevitável: continuar lavando louça.

Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/7358227080814461

 

 

Fabiana de Sant'Anna Evangelista

Professora Associada da EACH-USP e pesquisadora de mecanismos de prevenção de doenças cardiometabólicas por meio do exercício físico.

Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/8871159227482154

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