Rastros da contaminação: uma escuta sensível das águas do Rio Urussanga

Vanessa Lopes e Augusto Zanelato

A Bacia Hidrográfica do Urussanga é a bacia que possui o maior percentual de rios impactados com drenagem ácida. Os rios que apresentam pH < 6,0 (11,3%) correspondem a 175,4 km de rios impactados, em 1.558 km de extensão dos rios que compõem a bacia. Os trechos com pH < 4,5 estão concentrados, principalmente, nas sub-bacias dos rios Carvão, Caeté e Linha Anta, além do próprio leito do rio Urussanga (12º Relatório ACP Carvão, 2019, p. 35).

 

          O projeto "Territórios Sensíveis"[1] foi concebido por Walmeri Ribeiro para investigar práticas performativas envolvendo os impactos do Antropoceno na vida das pessoas. Desde 2014, o trabalho vem explorando a questão da poluição da água em comunidades vulneráveis e economicamente vinculadas à cadeia produtiva do petróleo. Atualmente, esta metodologia está sendo aplicada na região carbonífera do sul catarinense, para abordar especificamente a contaminação das águas na Bacia do Rio Urussanga, um passivo ambiental sem precedentes deixado no último século pelas mineradoras.

 

          A atividade econômica do carvão contaminou uma área de 6.000 ha na região. "Territórios Sensíveis - Rio Urussanga”[2] surge então para lidar artisticamente com esta realidade, em colaboração com Augusto Zanelato, Henry Goulart, Vanessa Lopes, William Marques, propondo um mergulho profundo em águas acidificadas.

 

          Nos lançamos neste desafio acreditando na potência da arte enquanto um agente de transformação, capaz

de trazer novas perspectivas para a questão da poluição de um rio maltratado e mudar a maneira de como a população se relaciona com essa realidade. O objetivo inicial era de adentrar nesse território sensível, a fim de criar manifestações estéticas que pudessem ressignificar a ideia de rio morto no imaginário local. Um processo de criação coletivo que resultará na produção de obras inéditas que serão compartilhadas publicamente através de uma exposição.

          Iniciamos a pesquisa-criação com uma residência artística imersiva em campo. Durante uma semana, nossos corpos foram atravessados por um território sensível dizimado, onde fomos dragados diariamente por paisagens impactantes, formada por montanhas e mais montanhas de rejeito, rios leitosos contaminados de enxofre, lagoas coloridas por pirita, carcaças de minas abandonadas, bocas de mina despejando continuamente metais pesados em pequenos rios, adentrando em áreas inóspitas e em grande parte abandonadas à própria sorte. Oferecemos a seguir, um breve relato do processo de criação dos autores, compartilhando três eixos temáticos levantados que estão em processo de desenvolvimento.

 

Pirita

          Com 47% de ferro e 53% de enxofre em sua composição

(Câmara, 2011), a pirita é um dos elementos chave da narrativa

estética que estamos construindo colaborativamente. Também

conhecida como ouro de tolo, trata-se do principal rejeito da

mineração de carvão e é considerado tóxico para humanos.

Apenas para entendermos a dimensão do problema, o carvão

minerado nesta região durante décadas era de baixa qualidade,

então, de todo material extraído apenas cerca de 25% era

aproveitando, sendo que o restante era simplesmente descartado a

céu aberto, deixando danos sistêmicos ao meio ambiente para as

próximas gerações.

          A pirita seria um elemento estável se fosse mantida em sua

condição geológica original, porém, quando entra em contato com o

oxigênio, aciona um processo inevitável de oxidação. Portanto, fica

clara a importância da mão humana neste processo, sem ela não

haveria dano. O poder de contaminação da pirita atinge o solo, águas

profundas e superficiais e o ar. Em pHs menores que 3,5%, como é o

caso do Rio Urussanga, ainda existe um agravante bacteriano

catalisador, que torna a água ainda mais corrosiva e difícil de ser

alcalinizada. Hoje, o Rio Urussanga é tão ácido que nem para

agricultura pode ser utilizado, restringindo sua empregabilidade

à paisagem.   

 

          O fato é que as imagens das águas contaminadas que encontrávamos pelo caminho eram desconcertantes, causando uma sensação de terra arrasada. A oxidação da pirita grita alaranjado, produzindo um estranhamento por suas tonalidades vibrantes e singulares. Assim é o leito do Rio Urussanga, outrora azul, profundo e rico em peixes, seu cenário mudou no início da década de 40, logo depois depois das primeiras lavagens de carvão. Segundo relato do senhor Armando Betiol[3], um morador antigo desta geração que teve a oportunidade de conviver com a abundância do rio Urussanga, os peixes morreram no dia 12 de agosto de 1942. Desde então, o rio padeceu alaranjado e passou a ser considerado como morto. 

        

          Trabalhar as pigmentações oriundas da pirita logo se tornou um vetor pulsante de direcionamento. Lidamos agora com diversas questões sobre como isso pode ser concretizado em forma de arte. Durante o trabalho de campo coletamos de pedras alaranjadas na nascente do rio Urussanga, argila vermelha de área de mina em "recuperação", pirita brilhante em área de rejeito, entre outros materiais. Aos poucos estamos tratando estes elementos, que serão utilizados na produção de composições estéticas sobre painéis de metal.  

 

Escuta

          Em nosso sexto dia de pesquisa de campo em ambiente degradado, em um momento de escuta sensível às margens do rio Carvão, expusemos nossos corpos em busca do ato de ouvir o que aquele ambiente tinha a nos dizer. Foi quando um eco da civilização milenar Xokleng cruzou nosso imaginário, povoando fortemente nossos pensamentos. Mas que relação teria uma população indígena praticamente extinta com a poluição das águas?      

 

          O povo originário Xokleng foi o guardião dessas terras por seis mil anos. Eles viviam do nomadismo estacional, ocupando toda extensão do território catarinense em harmonia com a natureza. Durante o processo de colonização, no final no século XIX[4], os indígenas desta etnia passaram a ser caçados por bugreiros. Este movimento foi chamado de "pacificação" e tinha a participação do Estado. Um quarto de século foi o tempo suficiente para que restassem poucos Xoklengs para contar a sua versão da história. Segundo relato do bugueiro Ireno Pinheiro, a ação se dava da seguinte forma:

[...] o assalto se dava ao amanhecer. Primeiro, disparava-se uns tiros. Depois passava-se o resto no fio do facão. O corpo é que nem bananeira, corta macio.  Cortavam-se as orelhas. Cada par tinha preço. Às vezes, para mostrar, a gente trazia algumas mulheres e crianças. Tinha de matar todos. Se não, algum sobrevivente fazia vingança (SANTOS, 1997, p. 27-8, apud SELAU, 2010, p. 161).

          Naquele dia em que ficamos em silêncio, buscamos aprofundar o

contato com o rastro de contaminação deixado pela mineração. Esta

escuta despertou um interesse sobre os habitantes que preservaram

por tanto tempo as águas pelas quais hoje lamentamos, já que o

processo de contaminação do rio foi concomitante ao extermínio

indígena, tudo em nome de uma lógica colonial de progresso. Quantas

orelhas tiveram que ser cortadas para que os colonos italianos

pudessem se estabelecer? É por esse motivo que hoje, quando

trabalhamos pelo renascimento do rio, de certa forma estamos também

resgatando a memória apagada dos Xokleng.

Funerais do Rio

          "Funerais do Rio" é um poema do Mons. Agenor Neves Marques, uma

importante figura local que vivenciou de perto os impactos da mineração

na vida da comunidade. Esta poesia foi publicada em 1978, no livro

"Magnólia Branca", em comemoração ao centenário de Urussanga. Nela,

fica clara a profunda tristeza do autor em relação à condição degradante

do principal rio que corta o centro da cidade. Seus versos narram um

chamado pela vida do rio Urussanga:

 

(...) Desperta, rio inerte e amortalhado,

E surge do ataúde mortuário

Desde a nascente

Limpa o estuário

Infeto, negro, opaco de carvão…

Expulsa a morte negra do teu seio!

Nova vida de flores revestida

Aguarda tua volta à vida

Esperando alegre a ressurreição… (...)

(MARQUES, 1978, p. 68)

 

          No momento em que tomamos contato com a literatura do padre Agenor, decidimos que iríamos trabalhar com seus textos de alguma forma, seguindo a ideia de desconstruir e testar possibilidades de desdobramento em outros suportes, mas sem perder a força e a potência poética da narrativa original.

          Para o fechamento desta primeira etapa de pesquisa-criação, organizamos uma intervenção coletiva na parte urbana do rio, envolvendo todos os artistas do projeto. A ação aconteceu em uma manhã de sábado, marcando o final da residência artística. A proposta era instalar o poema "Funerais do Rio" na ponte central, ao lado da Prefeitura. Diagramamos então todo conteúdo em tiras de papel, imprimindo uma tira para cada linha do poema. Do outro lado da folha, imprimimos um grafismo Xokleng para água. Fixamos as tiras ao longo do braço da face norte da ponte, utilizando como peso pedras alaranjadas de pirita coletadas na nascente do rio Urussanga.

         

          Durante a ação, ocupamos a área do gramado abaixo da ponte, deslocando

dois bancos de praça para a margem do rio. Nossa presença transformou aquele

lugar em um espaço temporário de convivência. Ao fundo, como paisagem sonora,

colocamos o áudio do depoimento do seu Jesus, um mineiro aposentado que cruzou nosso caminho com muitas

histórias para contar. Depois de uma semana intensa, respiramos um pouco juntos e observamos o rio em silêncio, com o pensamento vidrado em onde tudo aquilo poderia nos levar dali em diante.

          Trouxemos neste artigo apenas alguns gatilhos, de tantos outros afetos que também estão presentes neste processo de criação compartilhada. A demanda está posta, agora vamos colocar essas ideias em prática e seguir trabalhando na produção das obras até a abertura da exposição.

Referências

CÂMARA, M. R. A. Região Carbonífera Catarinense apresentada em pesquisas: o ambiente em discussão. In: CAROLA, C. R. (Org.) Memória e cultura do carvão em Santa Catarina: impactos sociais e ambientais. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2010.

GTA - Grupo Técnico de Assessoramento. 12º Relatório de Monitoramento dos Indicadores Ambientais. Ação Civil Pública nº 93.8000533-4. Volume 1, Março, 2019. Disponível em: <http://acpcarvao.com.br/forum/forumdisplay.php?fid=4>, acesso: 16/06/21.

MARQUES, A. N. Funerais do Rio. In: Magnólia Branca. Criciúma: Editora Ribeiro, 1978.

SELAU, M. A ocupação do território Xokleng pelos imigrantes italianos no sul catarinense (1875-1925): resistência e extermínio. Florianópolis: Bernúncia, 2010.

 

Sobre os autores

Vanessa Lopes

Artista, pesquisadora e produtora cultural. Doutora em Comunicação em Semiótica pela PUC-SP e vice-líder do Grupo de Pesquisa em Criação e Comunicação nas Mídias - CCM (PUC-SP). E-mail: independentecontato@gmail.com.

Augusto Zanelato

Designer de objetos e upcycling na Affaretti. Graduando em Arquitetura e Urbanismo pela UNESC. E-mail: augustozanelato@icloud.com.  

 

Notas:

1. Para maiores informações, acesse: https://www.territoriossensiveis.com/.

2. O projeto “Territórios Sensíveis - Rio Urussanga” é uma realização do Rotary Club de Urussanga através da Lei Aldir Blanc - Urussanga.

3. Conversamos com o  seu Armando Betiol enquanto fazíamos o mapeamento da parte urbana do leito do rio no dia 15/5/21.

4. Principalmente a partir de 1867, com a  publicação do Decreto nº 3748, que regulamenta as Colônias do Estado.

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